Uma característica marcante do ser humano é o "sunk cost", ou seja, a tendência de queimar vela cara com defunto barato; investir mais em alguma empreitada perdedora, unicamente porque ela já absorveu um monte de recursos, e parece de alguma forma errado, ou "fica feio" simplesmente jogar a toalha e tentar uma coisa nova.
Este padrão é observável em todos os níveis de organização humana, desde individuais até empresas e governos. É uma coisa entremeada na nossa mente, ninguém está livre deste sentimento. É mais um daqueles instintos que garantem a sobrevivência da espécie (talvez seja bom um pai investir no filho mesmo que lhe pareça inútil), mas puxam o nosso tapete quando vestimos o chapéu de investidor.
O "sunk cost" impede o investidor de realizar perdas enquanto elas ainda são pequenas. O sentimento emerge, e é racionalizado como esperança. "Amanhã vai subir, tem de subir". Mas continua caindo. E ainda assim resistimos em realizar a perda, pois seria nosso atestado de burrice estampado no extrato da conta da corretora. É melhor deixar como está, pois as ações sempre se recuperam um dia. E o investidor, assim pensando, dorme tranquilo.
Se este investidor tinha comprado papéis de boas empresas, realmente é provável que as ações acabem recuperando-se, e um belo dia a carteira do nosso herói entra em território positivo. Aí...
Aí ele deixa de dormir bem, começa a preocupar-se, com medo de perder aquele lucrinho. E vende tudo. Aí as ações continuam subindo, mas ele consola-se com os bordões aplicáveis: "lucro bom é lucro no bolso"; "sempre realize cedo demais".
Até que a cobiça faça este investidor comprar novamente as mesmas ações, geralmente no pico do mercado, e aí elas começam a cair...
Uma variante desse padrão de comportamento é o cara que segue o bom conselho de diversificar a carteira. XPTO sobe 1%, e Merposa cai 5%. Aí ele vende XPTO porque "lucro bom é lucro no bolso", enquanto deixa Merposa cair até a metade do valor de compra.
É curiosíssimo como o ser humano pode suportar a adversidade, mas lide mal com o sucesso. E isto faz as pessoas jogarem para empatar, para não perder, em vez de jogar para ganhar. E nenhum de nós escapa a esta tendência. Atire a primeira pedra quem nunca realizou lucro de 1% (vendo o papel subir mais 9% logo em seguida, sem você) ou segurou uma ação decididamente perdedora na carteira.
E esta é a forma mais segura de nunca ganhar dinheiro, pois expõe o investidor a perdas ilimitadas, enquanto limita os ganhos, fazendo a média geral cair em território negativo. Ouso dizer que é mais danoso realizar lucros cedo demais do que deixar-se anestesiar na baixa; pois se o sujeito simplesmente deixasse a carteira em paz em qualquer situação, seria respeitado como adepto do "buy-and-hold". Mas ele não deixa; tendo sido exposto a quedas de 50%, ele trata de realizar aquele ganho de 4% logo, e se acha esperto.
Neste aspecto, operar opções é muito diferente de operar ações; não se pode buscar consolo no "buy-and-hold", já que as opções expiram. Se houver perdas, elas fatalmente serão realizadas. É muito difícil lidar com isso.
Por exemplo, suponha uma trava de baixa pode trazer lucro máximo de R$ 1000 ou prejuízo máximo de 1000. Pode apostar que a possibilidade de sofrer este prejuízo vai lhe incomodar *muito* mais do que a possibilidade da sua carteira de ações cair 15% amanhã. Talvez você até fique contente se o mercado cair 15%, já que sua trava de baixa sairá no lucro!
No fim, são tudo instâncias do medo de perder. E o medo de perder nos leva a jogar para empatar -- o que é uma grande perda de tempo em se tratando de finanças. Mas jogar para empatar é uma coisa profundamente enraizada no ser humano.
Dizem que as mulheres preferem homens comprometidos e/ou promíscuos porque de alguma forma eles já foram "testados e aprovados". Talvez seja um algoritmo aceitável para achar um bom reprodutor, mas certamente é péssimo para achar um bom marido. Ganha num lado, perde no outro -- é jogar para empatar e receita de infelicidade.
Mas adivinhe só: nós os investidores, em sua maioria do sexo masculino, fazem a mesmíssima coisa em relação a ações da Bolsa. Compramos quando estão caras e na moda, rejeitamos quando estão baratas e fora de moda.
E sabe o que é mais terrível? Até mesmo os analistas, que deveriam ver mais longe, deixam-se levar igualzinho! Minha corretora dá acesso a determinado site de análise fundamentalista, que estava recomendando compra de Vale e Petrobrás em meados de 2008 (quando estavam no pico), mas desaconselhando-as logo após a grande queda do fim de 2008. Agora que Vale e Petro estão de novo a caminho do topo histórico, a recomendação é novamente de compra.
E assim, quem segue conselhos de tal analista, compra Vale a R$ 50, vende a R$ 20, e agora recompra a R$ 40.
No seu famoso livro "The Intelligent Investor", Benjamin Graham faz uma afirmação que sozinha vale o preço do livro: quando a ação cai, seu risco também cai. É tão óbvio, de uma simplicidade infantil, mas nosso cérebro reptiliano não enxerga isso sem ajuda externa.
Quinta-feira, Fevereiro 11, 2010
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1 comentários:
EPx, ótimo post. Nunca me esquecerei de um cidadão que trabalhava comigo que comprou a BVMF3 no IPO a R$25 e vendeu alguns meses depois, no meio da crise, a R$9,50. Mais um fator que pode fazer várias "vítimas": segurar ações de IPO's especulativos demais. Em meses o mercado as precifica, e o investidor vai pro buraco.
Abraços,
Pablo Santos
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