"Eu tenho medo"
-- Regina Duarte
Faz mais ou menos meio ano que fui visitar um túnel ferroviário, junto com minha esposa. Escavado na pedra, 136m em curva, praticamente um ponto turístico da região. Meu plano era percorrê-lo por dentro. Esperei meses pela conjunção de vários fatores: disponibilidade de tempo, dia de sol, avó disposta a cuidar do neto, etc. Fui armado de uma lanterna elétrica safada, mas que me pareceu suficiente, afinal 130 metros parece uma distância minúscula em linha reta; algo como três postes de luz.
Mas chegando lá, adentrei um pouco e… remanchei. Era muito mais escuro do que eu esperava, não era possível ver nem uma sugestão de "luz no fim do túnel" (literal) enquanto a outra extremidade ia ficando cada vez menor. De repente, todos os medos plausíveis e implausíveis começaram a pipocar: que a lanterninha ia falhar justo no meio do trecho, sem luz visível de qualquer lado; que o trem passaria e faria picadinho da gente; que a montanha desabasse; que o comprimento do túnel era na verdade muito maior.
Eu podia botar a culpa na esposa. Se ela desse uma força talvez a gente tivesse conseguido. Mas, noutro dia...
Fui visitar uma ponte ferroviária, sozinho. Tencionava atravessar até o o outro lado. Refuguei de novo! Será possível? Medo de altura, medo do trem passar justo naquela hora, medo de ficar preso entre os dormentes… E mais uma paulada no ego. Por duas vezes, fui num lugar de difícil acesso, desejando muito fazer algo, e simplesmente o medo me impediu!
O fato é que aquela onda de medo subconsciente, animal, irresistível, tomou conta de nós, e não conseguimos prosseguir por conta disso. Todas as racionalizações são meros pretextos que arrumamos para massagear o ego, para não passarmos por covardes completos.
Não devemos subestimar nossos sentimentos, e em particular nossos medos; eles podem assumir o controle quando menos se espera; e podem nos levar a fazer coisas idiotas. E por mais que nos preparemos antes, que desejemos atingir um objetivo, ainda assim falhamos.
Inúmeros livros e artigos listam os erros e pecados mais comuns dos investidores iniciantes (com a ressalva que tais pecados também são amiúde cometidos por investidores experientes). Todos os inúmeros pecados podem ser condensados em dois sentimentos: MEDO e COBIÇA.
O medo nos impede de jogar para ganhar, enquanto a cobiça nos faz esquecer de controlar risco. Embora cada pessoa possa ser no geral mais "medrosa" ou mais cobiçosa, infelizmente cada um de nós é capaz de ser dominado por medo ou cobiça alternadamente, e geralmente na hora errada.
Na minha visão, a cobiça é simplesmente uma espécie particular de medo: o medo de ficar para trás, de ser um otário, de não pular no trem da alegria a tempo. É o medo de passar por medroso.
Considere o erro clássico do investidor: comprar no topo e vender no fundo. Absolutamente todo investidor já fez isso. Eu já fiz várias vezes. Ninguém escapa. No topo, você fica com o medo cobiçoso de ficar de fora do papel do momento. No fundo, você sai fora e recusa-se a entrar com o mercado em baixa, pois tem medo de perder tudo, e de ser xingado (ou gozado) pela Dona Encrenca.
Muitas e muitas vezes, o investidor faz isso sabendo perfeitamente que está errando. Mas ele deixou-se dominar pelo medo. E é assim que o ser humano se comporta. Sempre haverá bolhas e pânicos, porque por mais que se saiba que são erros crassos de investimento, o medo e a cobiça são indomáveis.
A "psicologia de manada" dos mercados, alternando fases de cobiça com fases de pavor, é universal; mas nós brasileiros temos uma aversão ao risco mais aguda que outras culturas, por fatores que não cabe discutir aqui; o ponto é que esta herança cultural trabalha contra nós. É a síndrome de Regina Duarte. Entre correr riscos para melhorar alguma coisa ou deixar tudo como está, ficamos com a segunda opção.
E, finalmente, todo mundo é machão na conversa com os amigos… ou escrevendo num blog. Não se pode "ensaiar" o medo; é preciso enfrentar as situações na prática para descobrir seu limite, seja tentando atravessar um túnel ou colocando dinheiro em risco.
O pior é que atravessar o túnel não vai prepará-lo para atravessar a ponte, pois claustrofobia não é igual a medo de altura. Da mesma forma, acostumar-se com uma determinada operação não vai prepará-lo para a próxima. Descobri isso não faz muito tempo, ao tentar umas travas de baixa em vez de venda coberta. Embora o risco da trava seja limitado, é um risco diferente, e foi o suficiente para me incomodar. Faço travas menores do que o meu lado racional suportaria, para não ficar com medo o tempo todo...
Um pouco de medo e ansiedade são componentes importantes e úteis da psique. Gente que sempre vai a 12 no truco sem nada na mão, também não dura na Bolsa. É bom e importante sentir medo; só não se pode deixar o medo dominar nossos atos, anestesiando-nos na hora de agir, ou fazendo agir de forma boba.
Quinta-feira, Fevereiro 11, 2010
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1 comentários:
EPx, como você bem disse, com toda a razão, tem muita gente que age pelo medo e sabe muito bem o que está fazendo (errado). Provavelmente, os mesmos que chamam a Bolsa de "cassino" ou "montanha-russa". Ao meu ver, devemos nos informar ao máximo sobre aquilo que queremos fazer (ou investir), para tentar reduzir esse medo. E, se ele bater na porta, ainda teremos aqueles informações para seguirmos firmes e fortes.
Abraços!
Pablo Santos, do blog Leitura & Negócios
http://leituraenegocios.blogspot.com
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