Quarta-feira, Fevereiro 10, 2010

[Pecados do investidor] #1: pretender viver de Bolsa

Há muito tempo, periódicos em geral lançam mão de uma lista de "sete pecados", "sete erros", "dez perguntas", "dez mitos", enfim, uma quantidade mágica de items a respeito de determinado assunto. É um artifício para encher lingüiça, utilizado quando o redator não tem idéia melhor e a edição precisa fechar, e mesmo assim a maioria das pessoas gosta.

Então, já que todo mundo faz, também vou fazer a minha lista de pecados do investidor. Com um detalhe: são erros que eu cometi pessoalmente, e às vezes ainda cometo. São meus demônios particulares. É difícil individualizá-los, pois estão todos interligados.

Bem, ao assunto. Veja se esta "consulta" lhe soa familiar:


Seguinte meu bruxo: tenho 5.000 reais para investir e preciso de uma renda mensal de 3.000 reais. Que operações devo fazer para conseguir isso? Garante que não vou perder o investimento?


Certamente algum amigo, parente, cunhado, colega de forum ou mesmo um completo desconhecido já lhe fez esta pergunta. Já vi isto inúmeras vezes, é até motivo de gozação recorrente dentro da equipe #d00dz. Mas a verdade é que todo mundo, inclusive eu mesmo, já sonhou em viver de Bolsa. Quem disser que não, é mentiroso e está com vergonha de admitir :)

O chato é que *existem* formas de conseguir a renda que nosso bruxo deseja. Se o sujeito acertar a mão no daytrade um mês inteiro, comprar opções e o mercado subir, ou fazer uma trava de baixa ITM e o mercado descer, ele consegue o que quer. Só que a chance de perder o capital, em qualquer caso, é de 50% ou mais. O fato dessas "oportunidades" existirem é a causa de muita desgraça.

O engodo é mais sutil, mas igualmente perigoso, quando o sujeito tem mais dinheiro e uma noção básica de que não conseguirá dobrar o capital todo mês. Aí ele tenta extrair 'razoáveis' 5% ao mês de 50 mil. Para atingir esta performance, ainda é preciso correr riscos bastante grandes; e fatalmente o sujeito perde muito dinheiro. Se perder metade e sair da Bolsa injuriado, para nunca mais voltar, ainda pode considerar-se um cara de sorte. Muitos perdem tudo.

Há cinco problemas aqui. O primeiro e mais óbvio é a exigência de uma performance muito grande. O parâmetro tem de ser a renda fixa. Se um investidor faz o dobro da renda fixa (o que significa 1,5% ao mês, hoje), já é uma boa renda, e é preciso colocar dinheiro em risco para atingí-la.

O segundo problema é a necessidade premente da renda se concretizar todo santo mês. Como extrair uma renda fixa de um mercado de renda variável? O próprio nome -- renda variável -- evidencia o paradoxo.

Quando o sujeito precisa fazer uma renda mensal, ele acaba sendo obrigado a fazer qualquer operação e correr riscos desaconselháveis, sem esperar a melhor oportunidade. Mesmo quem "não precisa" extrair renda da Bolsa incorre às vezes neste erro, por sentir-se coagido a não perder da renda fixa. E operar sob pressão é receita para o desastre.

Além disso, apesar de tecnicamente toda aposta ter 50% de chance de sair vencedora, a Bolsa parece ter uma predileção sobrenatural em puxar o tapete de quem busca nela uma renda certa. O mais legendário investidor de todos os tempos, Jesse Livermore, menciona em sua biografia um caso interessante a respeito disto.

Contou ele que diversos operadores fizeram uma "aposta": tentar comprar um certo casaco de peles muito caro, com a condição de que o dinheiro teria de ser ganho na Bolsa. Um após o outro, todos falharam no intento. Note que tratava-se de gente experimentada no mercado, com muito dinheiro, e acostumada inclusive a fazer manipulações e trambiques. Quando finalmente um desses investidores decidiu comprar o casaco de qualquer jeito (sem ter ganhado o dinheiro na Bolsa), ele não estava mais na loja, já tinha sido vendido.

A lição que Livermore tenta passar é: não se deve pretender tirar um "salário" mensal da Bolsa para fazer frente a despesas e compromissos. O mercado teria uma tendência quase mágica a entornar o caldo de quem faz isso. Ou talvez seja simplesmente a necessidade de operar qualquer coisa, regularmente, sem esperar pelo melhor momento, que cause a derrota. Isto vale mesmo para os mais ricos investidores.

Não há nada de errado em retirar dinheiro da corretora para pagar despesas, se for necessário. Dinheiro é para gastar. Se o capital investido for grande o suficiente, este saque não vai comprometê-lo. Mas é impossível sincronizar retiradas com os ganhos; quem não tem outra fonte de renda, tem de aceitar o risco de ter de fazer retiradas com o mercado no fundo do poço.

Como diz o Bastter com muita propriedade: Bolsa remunera capital, não paga salário. E os combustíveis da remuneração são tempo e risco. Sem dar tempo ao tempo e sem correr riscos, não há retorno.

Também pode-se usar aqui o argumento do "mercado eficiente". Se a Bolsa oferecesse algum mecanismo de geração de renda fixa sem risco, todos os poupadores migrariam para a Bolsa, inundando-a de dinheiro e fazendo-a subir, até o hipotético rendimento empatar com a renda fixa "normal".

No post anterior, mencionamos as operações-taxa, que permitem obter uma renda quase fixa, quase sem risco. Há operações sofisticadas que permitem extrair uma renda "fixa" da Bolsa. Mas quanto mais segura for uma operação, mais a taxa de retorno dela vai aproximar-se da renda fixa convencional, ou da poupança. Certamente uma taxa de 1,5% ao mês não é o que o nosso bruxo com 5000 reais no bolso consideraria um "bom investimento". E se o capital não for muito grande, tais operações sofisticadas podem nem valer a pena.

O terceiro problema dos "bruxos" é que eles, paradoxalmente, buscam risco zero, ao mesmo tempo que desejam altíssimo retorno. Em geral porque têm pouco dinheiro, e compreensivelmente não querem perdê-lo. Mas falta a muitos a noção de que risco e retorno andam de mãos dadas.

O quarto problema é que a necessidade de dinheiro para a vida pessoal é quase sempre um valor fixo mensal, e é impossível casar isto com a natureza variável da renda da Bolsa. Por mais que o sujeito pense "se eu ganhar menos, gastarei menos este mês", ele não vai conseguir fazer isto de verdade (muito menos se tiver família).

E haverá meses em que o rendimento da Bolsa será negativo, e espera-se que o investidor *traga* capital para segurar o que tem. Isto implica em que haja outra fonte de renda, de natureza completamente diferente -- como por exemplo o bom e velho salário de empregado.

É por isso que todo consultor de finanças que valha o que come, encoraja os investidores a continuar trabalhando em suas profissões "normais". Entre outros motivos, é uma "bóia de salvação" se tudo o mais falhar.

O quinto e último problema da "bruxaria" é que, se uma pessoa chegar a ter capital suficiente na Bolsa para viver apenas disso, a administração desse capital tornar-se-à uma ocupação full-time -- ou pelo menos uma preocupação full-time. Ou seja, o sujeito troca um emprego por outro. Será que é isto que os "bruxos" procuram? Duvido.

Naturalmente, ser dono da própria quitanda tem suas vantagens. E é onde a maioria de nós quer chegar. Mas não nos iludamos; sossego completo é só na sepultura.

1 comentários:

Pablo Santos disse...

EPx, muito interessante o seu depoimento. Na minha opinião, esse desejo de "viver de bolsa" é um efeito colateral de ser um trader. Os fundamentalistas preocupam-se menos com as movimentações intensas e mais com os resultados da empresa no longo prazo. Por isso, também acho que é um desafio aliar os daytrades com a estratégia de longo prazo, esta tão difundida brilhantemente pelo Bastter. Mas essa é a opinião de um super fã de Warren Buffett e do método fundamentalista, portanto, sujeita à preconceitos.

Abraço,
Pablo Santos
http://leituraenegocios.blogspot.com

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