Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre
a água já não vira vinho
vira direto vinagre
-- Cacaso
Um tipo que não consigo compreender, mas que abunda nos fórums de finanças brasileiros, é o reclamão. A própria participação ativa em forums é algo que não me parece muito produtiva, mas eu já cheguei a ser freqüentador assíduo o suficiente para não me incomodar mais com os reclamões; passaram a fazer parte da paisagem. Talvez até tenha me juntado a eles em algumas discussões.
Tendo perdido o hábito dos fórums, esses dias o Bruder me apareceu com o screenshot de um forum, falando cobras e lagartos do Lula e do pré-sal etc. E a inconveniência disto saltou imediatamente aos olhos.
Sem entrar já no mérito da discussão, não faz o menor sentido reclamar que as coisas estão assim ou assado no contexto do investimento em renda variável, já que o mercado proporciona mecanismos para ganhar tanto com boas quanto com más notícias. Se alguém tem uma visão pessimista a respeito de uma empresa, de um setor ou mesmo do País todo, é livre para não investir neles, ou até (se confiar muito no próprio taco) para vendê-los a descoberto.
Em vez de reclamar, a discussão deveria ser algo no estilo "a situação é X: como fazer para lucrar em cima disso?". Mas cá estou eu reclamando da reclamação, o que é igualmente estúpido. É óbvio que quem sabe lucrar em cima das más notícias não está contando vantagem nos fórums, está ocupado ganhando dinheiro. Foi exatamente por isso que parei de freqüentá-los.
E cada um que vote com sua carteira naquilo em que acredita. E se você não acredita no voto, até para isto o mercado dá solução: seja um "contrarian investor".
O Lula é um alvo predileto (apesar da Bolsa ter subido muito durante seu reinado), mas historicamente reclama-se mais contra os "tubarões" e "manipuladores", que por algum motivo diabólico fazem o preço das ações "small caps" cairem assim que a gente as compra :) Todo mundo reclama, mas a galera segue tentando fazer fortuna comprando ações de empresas falimentares... Alguns investidores assumem com bom humor sua condição de não-tubarão e adotam apelidos como "Piaba" ou "Sardinha". Creio que estes já passaram da fase de reclamar.
Em particular sobre o tal do petróleo da camada pré-sal, os investidores não podem se queixar; a PETR4 dobrou de valor desde sua descoberta. Que o dinheiro resultante dessa descoberta será mal distribuído e mal aplicado, disso não resta dúvida, porque é impossível fazer uma distribuição perfeita de algo que "cai do céu" (pense na hipótese de você ganhar um prémio na loteria, achar "injusto" ficar com tudo, e convocar seus parentes para definir uma distribuição "justa" do prêmio -- nunca chegarão a um consenso).
O ponto é que, para o investidor, não deveria fazer diferença; o petróleo não foi achado no quintal dele, então é uma questão quase totalmetne ortogonal à vida cotidiana.
Os problemas tradicionais do Brasil já estão diretamente refletidos no mercado acionário; quem participa dele, já declarou implicitamente que aceitou o Brasil como ele é, e pretende lucrar em cima dessa realidade.
Claro que isso não faz os problemas magicamente deixarem de existir. Por exemplo, me incomoda que as duas principais ações brasileiras (PETR4 e VALE5) serem do setor primário, estatais (a Vale é uma quase-estatal para todos os fins práticos) e sem direito a voto. O tal do "custo Brasil" que impede o florescimento de empresas "de verdade" tem como prova anedótica a notória omissão na BOVESPA de nomes fortes privados no estilo Apple, Microsoft, IBM, Pfizer etc.
Mas enfim, cabe ao investidor tirar proveito das coisas como elas são. Não sou doido de abrir empresa no Brasil, e não estou tentado a investir em empresas "normais" do mercado acionário brasileiro. O jeito é ficar com Petrobrás e Vale mesmo, em particular porque elas têm mercado de opções razoavelmente líquido. Voto com minha carteira.
Sexta-feira, Setembro 18, 2009
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