Quarta-feira, Abril 01, 2009

A crise de energia da Califórnia

Como dizia minha mãe, "vergonha é roubar e não conseguir carregar". Esta frase condensa lindamente o que aconteceu na crise de energia da Califórnia entre os anos 2000 e 2001.

Também existe todo um folclore em torno deste episódio, e diversas informações na consciência do público são falsas ou distorcidas (o artigo da Wikipedia sobre a crise é particularmente ruim.) Assim, é interessante comentar a história. Minha fonte é o livro "The smartest guys in the room", que conta magistralmente a história da Enron e deveria ser lido por todo investidor.

Concessões de serviços públicos são indústrias sonolentas, com receitas praticamente fixas, lucros bons e estáveis. O ponto alto delas é o expertise técnico do produto que distribuem, como energia elétrica e água -- expertise que não se encontra no mercado, a preço nenhum. Financeiramente falando, tais empresas são quase sempre ineficientes e resistentes à mudança; e devido à natureza do serviço prestado, sempre têm muita influência política.

Nos anos 90, a euforia neoliberal mirou nestas indústrias e começou a pressão pela desregulamentação, em particular do setor de energia elétrica. Mas as concessionárias resistiram e colocaram seu lobby em campo, de modo que mesmo nos EUA foi muito difícil conseguir que algum estado desregulamentasse a energia.

Até que a Califórnia decidiu fazê-lo. Um estado à frente dos outros, um grande mercado (a Califórnia seria sozinha o sétimo país mais rico do mundo), e muito dependente de energia "importada" de estados vizinhos. Alguns aspectos dessa desregulamentação importantes no entendimento da crise:

* A desregulamentação foi feita apenas no mercado a atacado de energia. Os preços ao consumidor continuariam controlados por cinco anos, o que caracteriza uma desregulamentação parcial;

* Empresas e grandes consumidores estariam sujeitos aos preços de atacado.

* As distribuidoras de energia não poderiam produzir energia, sendo forçadas a vender suas usinas. (Algo semelhante foi feito no Brasil na mesma época.)

* Como esperava-se que o preço da energia por atacado cairia muito, esperava-se que as distribuidoras tivessem muito lucro com os preços de venda a varejo controlados. Uma vez que este lucro ultrapassasse um certo volume, os preços a varejo seriam também desregulamentados. Isto chegou a acontecer na cidade de San Diego.

* As distribuidoras de energia não poderiam comprar energia por meio de contratos de longo prazo com as geradoras; precisariam comprar diariamente sua energia no mercado aberto. A idéia era manter as geradoras em permanente estado de tensão, o que faria baixar os preços.

* O mercado futuro de energia continuava existindo, e qualquer participante poderia comprar, ou vender a descoberto, energia futura. Exceto os destinatários finais, ou seja, as distribuidoras.

* O estado da Califórnia criou uma agência (ISO) para fiscalizar o sistema e, se necessário, fazer compras emergencias de energia para cobrir a demanda.

* As regras desse mercado parcialmente desregulamentado eram extremamente intrincadas, de modo a fechar muitas "falhas" através das quais alguém poderia manipular o mercado. Mas o excesso de regras acabou criando falhas novas, embora não óbvias num primeiro momento.

A Enron estava bem posicionada para tirar partido deste processo, pois tinha comprado uma geradora (Portland General) e era a dona do sistema Enron Online, o primeiro pregão eletrônico para gás e energia elétrica. Além disso, possuia uma grande equipe de traders capacitados, que já ganhavam um bom dinheiro especulando nestes mercados.

De início, a desregulamentação funcionou bem; os preços da energia a atacado despencaram. Então começou o pesadelo: os preços de atacado da energia começaram a subir cada vez mais, atingindo por vezes patamares absurdos como US$ 750 o megawatt/hora. (Para se ter uma idéia do absurdo, esta energia equivale a 400 litros de diesel, que custam, hoje, no Brasil, no posto da esquina, apenas US$ 260)

A compra de energia em cima da hora, que deveria ser instrumento de pressão em cima das geradoras, acabou virando pressão em cima do lado comprador, ou seja, das distribuidoras e da agência ISO. Ambas tinham a obrigação de fechar a demanda, pagando o que as geradoras estivessem pedindo.

Para agravar ainda mais a situação, de vez em quando uma geradora desligava-se para manutenção, aumentando ainda mais a escassez. Houve momentos em que 25% das geradoras estavam fora do ar. A Califórnia tinha então de "importar" energia de estados vizinhos, porém esta energia de fora não estava sujeita a nenhum limite de preço (nem mesmo o teto de US$ 750/MW imposto para as geradoras californianas quando os preços dispararam pela 1a vez.)

A agência ISO tinha de intervir cada vez mais freqüentemente, comprando energia a preços estratosféricos para manter a grade funcionando, e esta despesa era do Estado da Califórnia.

Como a Califórnia tinha uma certa escassez de energia, pensou-se a princípio que a escalada de preços fosse devida a isto. Porém, com o tempo, começou a ficar claro que muito daquilo era manipulação de preços no mercado aberto. Mas como, se as regras eram tão elaboradas?

Os traders de diversas empresas participantes do mercado, como a Enron, descobriram truques que as regras não impediam, e eram difíceis de detectar. Por exemplo:

* Agendar propositadamente transmissão de energia por uma linha já ocupada por outras transmissões. A distribuidora contava com aquela energia mas descobria no último minuto que ela não poderia ser entregue. Isto forçava a contratação emergencial de outra linha, o que custava mais caro, remunerando mais o dono da linha.

* Agendar energia gerada na Califórnia para a grade de outro estado, causando escassez local, forçando a compra da energia "importada" para cobrir o furo. Mas no fim das contas, tecnicamente falando, o suprimento era fornecido pela própria geradora local.

A maioria destas fraudes não podia ser cometida por um participante isolado no mercado; era necessário o conluio de pelo menos dois. Isto desfaz o mito de que a Enron foi "a grande culpada" pela crise. Todas as grandes empresas de energia descobriram os furos na legislação, trocaram figurinhas e finalmente se coordenaram para manipular o mercado.

Curiosamente, a manipulação do mercado rendia, por si só, pouco dinheiro, e desse butim a Enron ganhou menos que as outras (a campeã foi a Dynergy, ao que se sabe). O dinheiro realmente graúdo foi ganho por aqueles que estavam "comprados", ou seja, apostando que o preço da energia elétrica ia subir. Neste tipo de operação, a Enron ganhou muito: US$ 2,2 bilhões. Este dinheiro foi ganho "honestamente", por assim dizer, mas é verdade também que nunca teria acontecido sem a manipulação de mercado subjacente.

Apesar dos problemas, tanto o governo quanto as empresas prosseguiram defendendo a desregulamentação. Naturalmente, os políticos não queriam admitir tão facilmente que tinham feito uma legislação tão furada, e empresas como Enron e Dynergy possuíam agora o poder do lobby.

Como as distribuidoras de energia elétrica cobravam tarifas controladas mas tinham de pagar preços exorbitantes no atacado, e não podiam deixar de fornecer o serviço, uma a uma entraram com pedidos de falência.

Nos últimos estertotes, algumas distribuidoras desligavam a energia de um bairro, depois do outro, de forma rotativa, tentando diminuir o consumo total e assim o volume de compra no atacado. Outras pediam para os usuários desligarem até as luzes das árvores de Natal. Como as tarifas ao consumidor continuavam no mesmo patamar, os consumidores não tinham incentivo real para economizar energia.

Em San Diego, a distribuidora local tinha conseguido lucrar o suficiente com o novo esquema a ponto ter os preços ao consumidor liberados. Como resultado, os consumidores daquela cidade começaram a receber contas em média quatro vezes mais altas do que a média histórica. Pequenas empresas começaram a fechar simplesmente por não ter como pagar a conta de luz.

Nos EUA, boa parte da energia é gerada por termelétricas, muitas movidas a gás natural. Quase todas as empresas envolvidas com energia elétrica (Enron, Dynergy) começaram na vida como empresas de gás natural. Assim, a manipulação de mercados estendeu-se ao gás natural, fazendo o preço deste subir e encarecendo ainda mais a energia elétrica.

Naturalmente, a população começou a ficar cada vez mais irritada e começou a protestar. Demorou, mas os políticos sentiram que a coisa não podia continuar como estava. No início de 2001, um decreto obrigou as geradoras a vender energia por preços tabelados. Em pouco tempo, tudo estava nos eixos novamente.

A desregulamentação foi considerada um fracasso. O caso foi discutido de todos os ângulos; alguns afirmaram que a grade de energia elétrica é um sistema monolítico, sobre o qual não faz sentido implementar um mercado livre. Na esteira deste caso, descobriram que o mercado livre de energia em Washington fazia os elétrons ficarem "girando" no anel de linhas em torno da cidade até dissiparem-se na forma de calor.

Na mesma época, começaram os problemas da Enron, devido à sua frágil estrutura de financiamento, baseada na premissa de que suas ações nunca cairiam muito. Mas veio a bolha ponto-com, as ações caíram, e a Enron foi riscada do mapa antes do fim de 2001. A coincidência temporal colou a crise de energia à imagem e a história da Enron, eleita o grande Judas dos californianos.

POST MORTEM

Mas como poderia a Enron falir tão de repente, se ela lucrou 2,2 bilhões de dólares apenas negociando energia, fora o que ganhou negociando gás?

Ocorre que a Enron "roubou" mas não "carregou": como foi dito, as distribuidoras de energia faliram quase todas... e o crédito da Enron está preso até hoje dentro dos processos de falência e concordata destas empresas. E com o escândalo público da crise de energia, é claro que essas distribuidoras vão tentar anular estas dívidas. Nem os credores da massa falida da Enron vão ver essa grana.

E outra parte desse lucrão foi aniquilado dentro da própria Enron, ainda antes da falência. A Enron tinha uma *segunda* mesa de negociação de energia e gás, separada da mesa principal por conta de uma guerrinha de poder. Esta segunda mesa apostou que a energia ia *cair* de preço! (Não parece uma piada?) Resultado: perdas de US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão,

Quanto às empresas que não faliram, como a Dynergy, trataram logo de entrar em acordo com a justiça da Califórnia e devolveram boa parte dos lucros obtidos no mercado de energia, mesmo a parte "honesta", já que a alternativa seria um desgastante e perdido julgamento.

Ainda no início da crise, e dentro da Enron, muita gente profeticamente criticou as manipulações de mercado feitas pelos traders. A Califórnia tinha de ser o "garoto-propaganda" da desregulamentação; todos os demais estados estavam observando os acontecimentos.

Quando a Enron faliu, os traders de energia a atacado acharam que iam ser contratados a peso de ouro por alguma empresa de energia ou corretora, já que eram o único setor da Enron que dava lucro. Mas isto não aconteceu, e não foi por causa da intervenção estatal no mercado de energia. Os traders, na sua ganância, destruíram o mercado que tinham trabalhado muito para construir, e assim também destruíram seu próprio emprego.

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