Correndo o risco de juntar-me ao Capitão Óbvio, segue uma experiência com meu orçamento doméstico.
Como alguns sabem, desenvolvi um software de contabilidade (o Luca), e um dos objetivos era manter minha contabilidade pessoal. Tenho mantido minhas contas registradas em partidas dobradas desde 1993, e implementei meu software de contabiliade várias vezes, em várias plataformas, como forma de aprendê-las (ZIM, MS-Access, Delphi, C++, Python, esses são apenas as que me lembro).
O objetivo era, naturalmente, manter o controle das contas. É totalmente diferente gastar "às cegas" de que gastar sabendo que no fim do mês o balanço vai acusar seu atentado contra o futuro financeiro. Também é legal você ver que, ao longo do tempo, suas contas realmente andaram para frente; coisa que não seria possível ver sem uma contabilidade. (Se bem que a declaração de Imposto de Renda também serve para isto, embora só mostre o status do seu patrimônio uma vez por ano.)
Mas ultimamente esse hábito estava revelando-se um tanto sacal e inútil. Sem a disciplina de registro diário, acaba ficando tudo para o final do mês, e isto representa algumas horas de trabalho tedioso, e olhar os tickets de despesa uma vez por mês não é suficiente para controlá-las. E apesar daquele ditado ser parcialmente verdade -- "o que engorda o boi é o olho do dono" -- esse efeito tem eficácia limitada. Controlar os ativos não faz aparecer dinheiro magicamente.
Mas a principal deficiência da minha contabilidade era, digamos, a transparência. Eu mostrava o balanço para minha esposa Ana, eu explicava, explicava, e ela dizia "aham, aham". Além de não entender muito bem os números, ela não acompanhava o processo de elaboração dos mesmos (e nem eu, já que eu digitava tudo no fim do mês). Assim, com a sabedoria inata típica e peculiar das mulheres, ela não via muito sentido em ficar discutindo o que já tinha acontecido e não podia mais ser mudado. Acabávamos discutindo nos acusando de gastarmos demais.
Dados estes problemas, aboli completamente a contabilidade por partidas dobradas, a passei a adotar uma planilha. Planilha de papel -- uma liçãozinha tomada do SCRUM. Uma planilha por mês, num papel A4, onde qualquer um que faça despesas pode anotar diretamente.
Registrar contas em papel também não é garantia de transparência. Meu pai registra as contas domésticas em papel desde os anos 70, de forma parecida com a minha planilha, apenas ele faz registros no tal livro. Sempre que minha mãe pedia para consultá-lo, acabava em discussão. (Ainda devem discutir, mas agora não estou mais lá para assistir.)
Assim, faço questão que a planilha fique em lugar acessível, visível, para que os valores sejam vistos por todos conforme vão aparecendo. Tento fazer um total parcial a cada 10 dias.
Alguns detalhes da minha planilha A4:
* Há um orçamento inicial por tipo de gasto. Eu não gosto de orçamentos, acho que eles estimulam a gastar até o limite previsto, acabam sendo um "moral hazard" se o objetivo do processo era diminuir gastos. Mas acaba ficando mais fácil "negociar" um orçamento familiar se os tetos para cada item já estão previstos; e gastos familiares felizmente tendem a ser estáveis.
* A minha planilha tem poucos grupos de despesa: supermercado/alimentação, telefone/Internet, água/luz, combustíveis, diarista, diversos, e mesadas de cada um dos familiares. O item "Diversos" tem orçamento minúsculo de modo que qualquer "extra" vultoso avança em cima das mesadas e tem de ser negociado em conjunto. No futuro, pretendo extinguir esse item "Diversos", e não recomendo que ele seja usado, pois acaba virando um lixão onde toda despesa extra é jogada -- tendo como resultado o descontrole.
* O total disponível para ser gasto é perfeitamente conhecido. (Nunca entendi maridos que mantém o salário escondido das esposas.) Naturalmente, esse total é menor que a renda, para que sobre dinheiro todo mês.
* O valor economizado no mês (renda total menos total disponível para ser gasto) não aparece em lugar algum dessa planilha. O objetivo não é esconder nada, mas sim evitar o "olho gordo" e conspirações do estilo "vamos usar esta sobra SÓ NESTE MÊS para comprar tal coisa?". Também evita que aumentos de renda acabem provocando aumentos de despesa na mesma proporção.
* As mesadas NÃO são fixas; elas são compostas do que "sobra" entre o total disponível e as despesas orçadas. Aqui, dividimos a sobra em 3 partes iguais. Naturalmente o Felix é um bebê, mas tem uma "mesada" da qual saem o plano de previdência, fraldas, etc. Inicialmente o Felix não tinha sua própria mesada, mas não funcionou muito bem, pois acabava saindo tudo das mesadas dos pais, e o que é pior, sem um limite bem definido.
* No final do período, o total das despesas é confrontado com o orçamento inicial, e o saldo é transportado para o próximo mês, afetando o total de dinheiro disponível lá. Isto significa mesadas automaticamente menores em caso de estouro no mês anterior, ou mesadas maiores em caso de sobra. Assim, existe o incentivo moral para gastar menos.
* O saldo positivo ou negativo das mesadas são transportados de forma separada e segregada para o mês seguinte -- por exemplo, se eu estourei minha mesada em 300 reais, vou ter 300 reais a menos na próxima mesada. Isto evita a "tragédia dos comuns".
* O mês do orçamento não é o mês civil, e sim o período da fatura do cartão de crédito, já que é meu principal meio de pagamento. E despesas parceladas no cartão sempre caem à vista na planilha. Isto evita aquelas pequenas conspirações baseadas no calendário ("vamos comprar hoje porque [a primeira prestação] só vai cair na fatura do ooooutro mês").
Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
7 comentários:
Olá =) Sempre que posso acompanho o seu blog pelo nerds.valeta (mesmo os post sendo bem avançados para mim).
Gosto razoavelmente de economia a ponto de tentar gerenciar meus gastos (mas não entendo nada sobre o assunto) ^^ Também possuo uma planilha (a uns 3 anos e eletrônica) em que gerencio mensalmente meus gastos com uma pequena perspectiva de saldo para os meses seguintes. Tento atualiza-la diariamente (ou no máximo a cada 2 dias) mas é bem estressante.
O problema é que mesmo depois de 3 anos eu não consigo usar ela para "cuidar/melhorar" meus gastos, mas apenas para saber aonde o dinheiro foi parar.
Gostei do post e vim comentar para dizer que ele me deu algumas idéias para tentar melhorar a planilha em si e a forma com que devo encarar aqueles números!
Valeu ^^
Alguns comentários randômicos:
* Uso o gnucash desde que comecei a fazer controle financeiro (uns 4 anos), é meio bloat e não sei se recomendo a todos, mas funciona muito bem para mim
* Gostei bastante da sua idéia de mesada acho que vou utilizá-la, pois eu acabo não planejando muito como gastar, apenas cuido p/ não deixar o mês estourar (mas sobra dinheiro todo mês, porque não somos muito consumistas)
* Não achei legal o lance do cartão de crédito, uma regra pessoal minha é que o controle financeiro não pode mentir, ou seja, ele tem que mostrar o débito real de cada mês
* Sou bastante religioso com isso, lanço os gastos a cada 3 dias mais ou menos. Mas li num artigo um cara que recomendava fazer um levantamento alto nível a cada dois meses, só para ver se não está estourando (p/ quem não tem tempo)
Elvis, eu acompanho os teus post de economia, para ver se aprendo um pouco a controlar os meus gastos (não é fácil). Como tu faz para lançar as contas parceladas? Para efeitos de registro, tu considera o valor total do mês da compra ou lança as parcelas em separado?
Rudá, eu considero o valor total. Tipo, se eu comprei um iMac de 4000, considero que gastei 4000 neste mês, e fico "devendo" a mesada por muito tempo, mesmo que na verdade eu parcelei no cartão em 12 vezes. O ganho dos juros do parcelamento vai para o cofrinho.
Talvez seja idiota, mas jogar apenas a parcela mensal causa uma falsa sensação de contas equilibradas quando na verdade você pode estar devendo o limite do cartão inteiro.
Idiota não é. Agora entendi que você paga as parcelas com a mesada, isso não tinha ficado claro p/ mim antes.
Se eu entendi bem, o principal efeito é que você só volta a gastar a mesada quando já tem o dinheiro da compra parcelada revervado.
Isso é ótimo, sem dúvida.
Porém o lance de jogar o débito total como dinheiro gasto naquele mês me incomoda bastante... Uma outra maneira seria simplesmente subtrair o valor de cada parcela das mesadas futuras.
Mas enfim, detalhezinho de planilha. :)
Gostei do post e do blog em geral. Caí aqui por acaso. Mas já fiquei freguês.
Quanto a controles: ainda me dou bem com o Money99 - o último em português - e o atualizo 1 vez por semana. Seu principal trunfo é controlar gastos no cartão de crédito. Tenho também a categoria "diversos" que realmente é difícil de extinguir.
Gostaria de saber se as suas "mesadas" são à parte das despesas da casa, ou cada membro da família assume uma parte das despesas.
Parabéns.
@Tarcísio: as "mesadas" acabam sendo usadas para despesas da casa, por exemplo um móvel ou eletrodoméstico novo, pois tais despesas não são recorrentes.
Isso "força" a negociação entre as partes, e sempre há o plano B de alguém comprar por sua conta alguma coisa que deseje muito e os demais não concordem em pagar uma parte.
Postar um comentário