Embora direitistas como eu costumem pregar a obsolescência do governo, existem várias outras instituições que também têm futuro duvidoso conforme avança a tecnologia das finanças. Refiro-me aos bancos, tais como os conhecemos hoje.
O que um banco faz, primariamente? Aceita depósitos de pessoas com dinheiro, e empresta a pessoas que precisam de crédito. Isto poderia muito bem acontecer diretamente no mercado, sem intermediários, assim como o governo já toma emprestado vendendo títulos do Tesouro Direto.
Por que precisamos dos bancos para remunerarmos nosso dinheiro ou obtermos crédito?
1) Porque é um local de "rendez-vouz". Tanto o depositante quanto o tomador sabem que podem obter ali o que procuram. Ficaria consideravelmente mais difícil se ambos tivessem de se procurar mutuamente.
2) O banco normalmente garante uma taxa de juros para o depositante. Uma taxa pior do que se ele se entendesse diretamente com o tomador. Mas a padronização é sempre desejável (é por isso que McDonalds vende).
3) O banco garante os depósitos, e existem mecanismos adicionais que mantém parte dessa garantia mesmo que o banco vá à falência.
4) Como parte dessa garantia, o banco determina e controla o risco do tomador de crédito, cobrando taxas mais altas de tomadores mais arriscados.
5) Ainda como parte da garantia ao tomador, um banco tem ferramentas legais/judiciais muito mais "poderosas" para cobrar devedores do que uma pessoa física ou empresa comum.
6) Finalmente, os bancos detém o monopólio desse negócio. Factorings fornecem crédito para transações mercantis, mas não podem captar depósitos.
Ao longo do tempo, a tecnologia vai negar estas razões de um banco existir:
1) Assim como as Bolsas tendem assintoticamente a fazer 100% dos negócios eletronicamente, nada impede que crie-se um mercado de microcrédito ou cooperativa de crédito, onde depositantes e tomadores encontrem-se diretamente.
Tal mercado poderia começar usando a infra-estrutura atual do mercado de capitais, inicialmente sem identificar cada tomador individualmente. Os tomadores poderiam ser classificados por alguma agência de risco (pelo menos esse setor do banco não perderá seu emprego nunca :)
Conforme sua classificação de risco, a pessoa seria autorizada a vender títulos de determinado nome. Por exemplo o título CREDD49 poderia ser um título de crédito padronizado ("CRED"), classificação de risco D (seja lá o que isso significar!) vencendo em Abril (4) de 2009 (9). No vencimento, o vendedor tem de devolver, digamos, 100 reais.
Quem quiser emprestar para os sujeitos classe "D", simplesmente compra os títulos CREDD48 ao preço de mercado. Esse preço será regulado pelo risco e pelas leis de oferta e procura. Considerando risco e juros, o título poderia estar sendo negociado hoje a $90, o que significa que o vendedor-tomador de crédito recebe apenas $90 hoje mas tem de pagar $100 em Abril próximo.
Isto fica muito parecido com o sistema bancário islâmico. O Islã proíbe a cobrança de juros, então toda a remuneração de quem empresta gira em torno de comissões e taxas de desconto. Os títulos que o governo vende no mercado são negociados com deságio pelo mesmo motivo.
Se o "depositante" precisar reaver seu dinheiro antes de Abril, ele simplesmente revende o título CREDD49 para outro trouxa^Wplayer do mercado.
Existe o risco dele não reaver todo o dinheiro que investiu devido a algum pânico, como o subprime, onde o mercado não acredita que os tomadores classe D sejam capazes de honrar seu compromisso. Neste caso, os títulos seriam revendidos a um preço baixo.
Uma segunda opção de securitização dos depósitos, muito menos sexy porém talvez servindo como passo intermediário, é o banco passar a aceitar "depósitos" na forma de venda de ações do banco ao invés de dinheiro. Qualquer interessado poderia comprar uma ação do banco se desejasse um rendimento maior (com mais risco); isso provocaria imediatamente um aumento de capital do banco. Quando o "depositante" vendesse a ação, e ela fosse recomprada pelo banco, o capital automaticamente diminuiria. Nada impede que isto seja feito em paralelo com depositantes e tomadores "convencionais".
2) A garantia da taxa de juros desaparecerá, porém em troca os compradores de títulos de crédito receberão muito mais, em média, do que hoje. Isso porque deixa de haver intermediários.
3) A garantia do comprador-depositante receber seu dinheiro de volta é o problema mais complexo deste "distributed banking". Mas é na essência o mesmo problema do mercado de capitais, onde uma empresa pode falir, ou de alguém que lança opções e não consegue cobrí-las.
Provavelmente o mecanismo de garantia teria de envolver depósito de margem, ou de bens. Talvez soe desagradável que um tomador de $100 tenha de deixar $33 depositados como margem, mas o fato é que os empréstimos concedidos pelos bancos exigem garantias muito maiores, embora essa garantia seja muito flexível (pode ser fiduciária, com imóveis, com carta-fiança etc.)
4) O outro problema complexo é a classificação de risco -- algo extremamente difícil, ainda mais se tiver de ser feito a respeito de milhões de pessoas. Mas a tecnologia avança na direção de tornar isso possível, inclusive de forma algorítmica (apesar do Citibank ter se ferrado nos anos 90 fazendo isso).
5) As pessoas tomadoras de crédito no mercado teriam de sujeitar-se ao peso da lei em caso de inadimplência, assim como investidores da Bolsa e empresas de capital aberto já estão sujeitas hoje. Não seria possível conceber um sistema de crédito "peer-to-peer" num sistema judicial lento, incerto e "camarada" de quem não paga suas dívidas.
Numa fase intermediária, o crédito peer-to-peer poderia ser um sistema "opt-in", em que os devedores optariam livremente em aderir a regras de cobrança mais rígidas. Como tais devedores conseguirão taxas de juros mais baixas, a tendência é os bons devedores aderirem logo e sobrarem apenas os maus devedores, o que apressaria a derrocada dos bancos convencionais.
6) Como o sistema bancário é um monopólio artificial, é certo que será abolido ou "contornado" cedo ou tarde.
Alguns sintomas adicionais que os bancos convencionais estão morrendo:
a) Assim como todo posto de gasolina tem loja de conveniência, todo banco que se preze oferece cada vez mais serviços fora do feijão-com-arroz: fundos de investimentos, seguros, previdência, corretagem de Bolsa, fiança, classificação de crédito e assim por diante.
Isto não é simplesmente para ter mais lucro. É porque eles sabem que terão de mudar de ramo para sobreviver.
b) O escândalo do subprime expôs o fato que os bancos já securitizam seus créditos, ou seja, vendem sua dívida para o mercado. Ou seja, pelo menos metade do sistema bancário "distribuído" por nós proposto já está em franco andamento.
O problema é que, no caso de inadimplência, os bancos ainda atuam como garantidores dos depositantes, e assim ficaram com o mico na mão. Faltou securitizar os depósitos, diluindo o risco no mercado.
Paradoxalmente, eu acho os bancos estatais vão sobreviver aos bancos privados, porque os bancos estatais têm muitas funções extra-bancárias, como financiamento de agricultura, habitações baratas, custódia de depósitos judiciais e outras funções ditas "sociais" que os bancos privados não fazem.
Naturalmente, mesmo esses bancos estatais vão diminuir muito de tamanho conforme deixem de fazer intermediação de crédito. E tenderão a desaparecer na medida que (e em lugares que) suas funções "sociais" deixem de ser necessárias.
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6 comentários:
Concordo com o roberto. Alem disso, tem o fato dos bancos serem um mecanismo de transmissao de politica monetaria. Com toda certeza os bancos nao deixarao de existir se as politicas monetarias adotadas pelos governos forem tao ortodoxas como os atuais regimes de metas de inflacao.
Parabéns pelo artigo, muito inteligente e articuldo.
O único ponto é a questão monetária mesmo, os bancos são um grande "canal de vendas" do governo, seja distribuindo papel-moeda, captando depósitos à vista com (altos) compulsórios embutidos, ou simplesmente distribuindo secundariamente títulos do governo através de fundos de renda fixa.
Excelente o artigo, idéias interessantíssimas! Vou vender minhas BBDC4 e BBAS3 correndo, hehehe.
Sobre algoritmos pra determinar o risco de cada tomador, imagino que no futuro o bom tomador vai ele mesmo abrir pra um observador externo suas contas, voluntariamente, para reduzir suas taxas.
P. ex., permitir a observação (padronizada) dos meus recebimentos, do meu extrato bancário, dos meus padrões de pagamento de contas de consumo, de crédito em outros bancos, por um observador/padronizador teoricamente isento. O Serasa, p. ex., já é meio caminho andado nesse sentido... só que é compulsório, e o tomador não percebe claramente como seu "rating" afeta suas taxas, é um sistema binário (nome sujo/nome limpo) que ao final prejudica o bom pagador.
Felipe Vaz, de fato o SERASA já faz essa análise de crédito. Eu lembro que, quando eu tinha conta bancária pessoa jurídica, vinha um caboclo engravatado do SERASA todo ano no meu escritório, fazendo um monte de perguntas. Era exigência do banco ter um rating no SERASA para se ter conta lá, e custava 25 pilas. Ou seja, nem os bancos mais funcionam sem uma parte importante dessa infra-estrutura que no futuro vai obsoletá-los.
A respeito das ações, eu realmente não compro ações de bancos. Talvez eu esteja pensando excessivamente adiante, mas o fato é que não gosto deles. E o pré-requisito mais importante para comprar uma ação é gostar dela.
"Naturalmente, mesmo esses bancos estatais vão diminuir muito de tamanho conforme deixem de fazer intermediação de crédito. E tenderão a desaparecer na medida que (e em lugares que) suas funções "sociais" deixem de ser necessárias."
Estatal, diminuir de tamanho e desaparecer só porque deixou de ser necessária? Eu só acredito vendo.
Qualquer regulamentação do governo,já é motivo de virar monopólio porque entre aspas vira lei,Porque só os bancos podem emprestar dinheiro a juros,que por sinal são discrepantes,porque as pessoas físicas não podem empregar seu dinheiro num emprestimo para outra pessoa fisica ou juridica,para gerar renda para quem está emprestando e para quem está tomando o empréstimo.Emprestimos sendo bem empregados são sádios para a vida financera da pessao fisica ou juridica . MAS COMO TUDO TEM QUE PASSAR PELO RAIO X DO GOVERNO, ENTÃO PARA GARANTIR O AUTORITARISMO E O MEDO DE ESTAR PERDENDO UMA FATIA DE GANHOS,PARA SUSTENTAR OS GRAVATAS DO CONGRESSO, É MELHOR BOTAR EM LEI QUE É PROIBIDO...EMPRESTIMOS SÓ NO MONOPÓLIO BANCÁRIO ONDE O BANCO CENTRAL, CONSEGUE ENXERGAR, E ASSIM OS BANQUEIROS QUE TB CAPTAM DINHEIRO LA FORA ,NA HORA DE PAGAR A CONTA PROS OUTROS PAISES DERRETEM NOSSAS DIVISAS . E O POVO CADA VEZ MAIS POBRE....
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