Terça-feira, Agosto 21, 2007

Conseguir poupar, eis o problema

Quase todos os textos sobre investimentos, e isso inclui nosso blog, sempre partem do pressuposto que o leitor já tem um monte de dinheiro, e não sabe aplicá-lo. Na verdade, a situação é diametralmente oposta: a maioria das pessoas interessada no assunto ainda está pensando em economizar algum. Ler sobre este ou aquele investimento saboroso é uma tentativa de ganhar "inspiração" para a impossível tarefa de POUPAR DINHEIRO.

Não há como investir sem primeiro poupar dinheiro. E na verdade é preciso poupar *muito* dinheiro para investimentos sofisticados como ações e opções. Abrir uma conta numa corretora exige depósito mínimo de 5 mil reais. Existem pessoas entre nós que ganham isso todo mês, mas entra ano, sai ano e elas não conseguem juntar nada. O que dizer então de quem ganha salário mínimo?

Para quem não pode guardar muito, só existe uma saída: caderneta de poupança. E ela não é tão ruim quanto se apregoa. Na verdade, se analisarmos historicamente, ela nunca foi ruim. É uma das poucas coisas boas do Brasil: um investimento popular, que rende juros reais, garantido pelo governo, livre de impostos e aberto à qualquer poupador, por mais modesto que seja.

Parece desanimador. O caminho para chegar a investir em Bolsa ficou ainda mais longo... Mas é como diz o ditado, quem tem pressa que comece mais cedo. Mas afinal, por que é tão difícil poupar? Eu tenho uma teoria maluca a respeito disso, que gostaria de compartilhar.

Vivemos numa sociedade capitalista, onde tudo tem seu preço. Isso parece terrível, mas não é. É algo muito belo, em particular porque TANTO OS MEIOS DE PRODUÇÃO (O CAPITAL), QUANTO O TRABALHO, QUANTO OS BENS DE CONSUMO, TÊM VALOR EXPRESSO NA MESMA UNIDADE MONETÁRIA.

Isso parece uma coisa idiota, mas a civilização levou bastante tempo para chegar lá. Na Idade Média, o único meio de produção relevante era a terra, e apenas os nobres a possuíam. A "moeda de troca" dos feudos eram os casamentos entre famílias nobres. Até mesmo benfeitorias como moinhos, passíveis de serem construídas com "investimento" de trabalho do servo, eram de posse dos nobres.

A riqueza seguia um caminho de mão única: nascia e crescia na terra, era beneficiada com o trabalho dos servos, e no final virava alimento. Nunca poderia fluir no sentido oposto, ou seja, ser reutilizada para comprar mais terras.

Não adiantaria um servo ou um burguês artesão economizar a vida inteira, ele nunca conseguiria comprar um pedaço de terra. (Muito mais tarde, abriu-se a possibilidade de comprar títulos nobiliárquicos, numa tentativa de manter esse sistema à tona.) Na verdade, um servo não teria como economizar, pois suas únicas "modeas" eram o trabalho e a colheita, e nenhuma das duas pode ser estocada indefinidamente.

Nesse mundo, capital não se confundia com dinheiro. Dinheiro servia para transacionar mercadorias e serviços, mas não bens de capital. A sociedade ficava eternamente dividida em castas. Havia uma vantagem: devido à pouca utilidade do dinheiro, os juros eram baixos. Na verdade, juros eram expressamente proibidos pela Igreja Católica.

A Igreja Católica tinha grande participação nesse esquema, por ser a maior proprietária de terras da Europa. Não interessava à ela que se pudesse cobrar juros, pois neste caso o dinheiro tornar-se-ia fonte de renda, desprendendo as pessoas da terra. Esse modo de pensar não era pura maldade: a Igreja era cliente do pensamento aristotélico, e os gregos também estruturavam assim seu sistema econômico, colocando a terra como capital sem preço.

Uma das poucas formas de juntar "capital" era fazer muitos filhos. Sendo o trabalho o único meio de produção possuído pelos servos, ter uma família numerosa era vantajoso. Aumentar o rebanho de animais era outra forma, já que as pastagens eram um bem comum (o que dá a origem da expressão "tragédia dos comuns", que ocorre quando os rebanhos esgotam a pastagem). No Haiti era comum as pessoas usarem porcos como reserva de valor e moeda de troca.

Mas com o tempo, aqui e ali, diversos grupos davam um jeito de usar dinheiro ou ouro diretamente como meios de produção. Os judeus são o grupo mais conhecido, mas também havia os genoveses, e mesmo dentro da Igreja havia os cavaleiros templários. Aí veio o mercantilismo, e finalmente, veio a Reforma Protestante, que é um dos pilares do capitalismo moderno.

Todo esse processo não aconteceu da noite para o dia. Ainda encontramos resquícios medievais aqui e ali. Por exemplo, restrições à compra de ouro ou moeda estrangeira -- pois os excusados da restrição poderão adquirir bens inacessíveis à maioria. O comunismo provou ser um retrocesso essencialmente pelo mesmo motivo.

Unificar a expressão do capital e do consumo em uma única unidade monetária é tão revolucionário quanto a Escala Temperada foi para a música, pois unificou coisas justapostas porém imiscíveis (no caso da Escala temperada, foram as músicas baseadas em bemóis versus as músicas com sustenidos).

Enfim, voltando aos dias atuais, o dinheiro em nossa sociedade capitalista serve a dois propósitos completamente diferentes:

-> adquirir bens de consumo e serviços;

-> adquirir bens de produção, ou seja, capital.

Opcionalmente, o próprio dinheiro pode "ser" capital, gerando juros, mas quem toma emprestado esse dinheiro certamente vai adquirir alguma coisa com ele.

Tudo isso tem uma grande vantagem:

-> Dá a suprema liberdade de qualquer pessoa vender seu trabalho, poupar e passar a ser um detentor de meios de produção.

E uma grande desvantagem:

-> Aumenta muito as taxas de juros, em relação aos patamares seculares, devido à maior demanda do dinheiro para as mais variadas iniciativas.

Mas esta desvantagem vira novamente uma vantagem:

-> Permite ao poupador aumentar de forma significativa o capital, tão-somente sob efeito do tempo.

Nos tempos modernos, a taxa de juros "padrão", com que se pode contar em quase qualquer lugar e década, é 12% ao ano. Talvez seja necessário investir de forma ligeiramente mais arriscada em determinadas épocas, mas é perfeitamente obtenível. 12% ao ano é 1% ao mês, porcentagem que usaremos daqui para frente.

De forma muitíssimo genérica, podemos afirmar que existe uma relação matemática universal entre renda (que presumidamente vamos consumir) e capital:


Capital x 0,01 = Renda mensal


Se possuímos um capital de 100 reais, podemos facilmente extrair dele uma renda de 1 real por mês. Ou seja, apesar de capital e consumo serem expressos na mesma unidade monetária, existe um "degrau" bem íngreme entre os dois.

De maneira geral, quem gosta de poupar, se dá por feliz pelo fato desse degrau ser de apenas 100:1, e não ser infinito, como era na Idade Média. É melhor poupar do que ter de disputar justas e casar com uma princesa retardada para ser alguém.

Quem tem dificuldade de poupar, é essencialmente porque acha esse degrau horrivelmente alto. Parece-lhe ruim deixar de gastar 1000 reais prazerosamente, para perceber apenas 10 reais/mês em troca!

Graças ao fato que renda pode ser acumulada para virar capital, o dinheiro cresce exponencialmente com o tempo, se deixado intocado. Naturalmente ele não pode crescer infinitamente; um excesso de dinheiro na economia é contrabalançada por uma queda na taxa de juros (que aumenta o degrau renda:capital).

Considerando a taxa de 12% ao ano, o degrau capital:renda diminui para 30:1 se o dinheiro render juros por 10 anos. Isso significa que 33 reais economizados e reaplicados por 10 anos, gera 1 real de renda todo mês, pois os 33 reais terão engordado até 100. A chave aqui é o tempo. Quem tem pressa tem de sair mais cedo.

Considerando 30 anos de aplicação remunerada por renda fixa, o degrau diminui para apenas 3:1. Considerando 40 anos, o degrau desaparece. Um real economizado hoje gera um real de renda *mensal* daqui a quarenta anos. Mas poucas pessoas conseguem pensar nesses termos. Nem eu consigo. Afinal, estamos na era dos 15 minutos de fama...

Uma conseqüência "ruim" do capitalismo, e nesse aspecto ele anda de mãos dadas com o protestantismo, é que ele coloca uma tremenda responsabilidade sobre o indivíduo. O protestantismo ensina que cada um é individualmente responsável por sua salvação. O capitalismo permite a cada um ser rico desde que se discipline. Se não conseguir, você é um perdedor preguiçoso.

Talvez seja este o pivô das críticas ao capitalismo. Os socialistas não crêem que todas as pessoas sejam tão pesadamente imputáveis a respeito dos seus próprios destinos. Eu mesmo, que sou um liberal extremista, sou assaltado periodicamente por esta dúvida. Mas tenho concluído que as pessoas são sim grandemente responsáveis pelo seu futuro financeiro.

Poupar é uma filosofia de vida. Coletei algumas dicas de livros e pessoas. Quase nenhuma é de minha autoria; eu tenho dificuldades em poupar, tanto quanto o resto do mundo.

-> Poupar tem de ser uma filosofia de vida, praticada o tempo todo. E de preferência deve ser inclusive objeto de divertimento. É preciso ser como o mineiro ou o cearense da literatura.

-> Muita gente que não consegue poupar normalmente, consegue assumir a prestação de um financiamento. Isso é ruim pois mostra que só se consegue "economizar" se for para consumir. Mas pode ser bom porque mostra que há espaço no orçamento para acomodar um plano de poupança.

-> Seguindo esta linha de raciocínio, procure viver consistentemente com menos do que realmente ganha. É inclusive um bom exercício para os tempos em que você realmente tiver seu salário diminuído.

-> Planos de poupança e investimento têm de envolver toda a família. A má notícia é que seus familiares serão os primeiros a sabotá-lo. Ou então fazer sugestões ruins de investimento (como ir morar num apartamento maior) e ficar chateados se não forem acatados.

-> Além da família, a pressão por aparentar um nível social é um inimigo mortal da poupança. Devido à "utilidade marginal do dinheiro", quanto mais se ganha, mais caros ficam os bens desejados, e mais se gasta. Finja ser pobre, literalmente.

-> Pense na poupança como um ingresso para a liberdade. Ingressos podem perder-se. O mesmo para uma poupança mal investida. Tenha espírito preparado para eventuais perdas. Daí a importância de poupança ser uma filosofia de vida, e ser divertido.

-> Devo alertar novamente para o problema da família, tanto a próxima como a estendida. Família é uma instituição com forte ênfase na igualdade e fraternidade. Se você ganhar na loteria, consegue descolar-se de uma vez. Mas se tentar poupar aos poucos, "forças ocultas" vão tentar redistribuir seu dinheiro. Finja ser pobre.

2 comentários:

Frederico disse...

Excelente texto. Parabéns.

¡Qué malos sois! disse...

ótimo texto.

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