Segunda-feira, Agosto 02, 2010

"Ganhando dinheiro com opções" [GDCO]: primeiros fontes liberados

Aqui vai a primeira liberação de código-fonte das simulações de operações. O "pacote" foi batizado de projeto GDCOSimulator. Na falta de um nome melhor, formei uma sigla a partir do nome do livro...

Por ora, apenas a simulação já listada como Apêndice no livro foi disponibiilizada: venda coberta sempre carregada até o vencimento. Dependendo do interesse e de outras considerações técnicas (discutidas mais abaixo), mais scripts poderão ser incluídos.

Na verdade, há um pouco mais que o simulador, que estima o retorno de apenas um cenário. Também temos o script gerador de cenários. Também está incluído o visualizador gráfico dos resultados, bastante tosco ("culpa" de uma biblioteca chamada PyTk).

Por cenário entenda-se um conjunto de variáveis de mercado: volatilidade 30% ao ano, prêmio de risco 200%, opções ATM etc. Se temos cinco variáveis e cinco valores possíveis para cada uma, temos 5x5x5x5x5 = 3125 cenários diferentes para estimar. O gerador de cenários encarrega-se desta explosão combinatorial, executar diversas simulações em paralelo para aproveitar computadores "multi-core" e armazenar os resultados.

O código sofreu alguns retoques, em particular a tradução para língua inglesa de alguns termos; não houve tempo para uma arrumação mais profunda.

Por último, a biblioteca Black-Scholes está implementada em duas versões: em puro Python (mais lenta) e com Pyrex (mais rápida, mas precisa ser compilada). O software Psyco, se presente na máquina, também é utilizado para aumentar a performance.

A estrada adiante

Para início de conversa, apenas investidores com um pé na informática vão conseguir usar estes scripts. Isto é um fator limitante. O ideal seria todo e qualquer investidor poder rodar a simulação, para estimular a troca de ideias e a evolução da ferramenta.

Para tornar a ferramenta realmente acessível, seria necessário investir muito trabalho nos scripts atuais, ou então reescrever para Web. Adotar a plataforma "Web 2.0" traria muitas vantagens (*), e na minha visão corrente é o caminho a ser seguido.

(*) Detalhes sórdidos

Para os informatas ou curiosos, segue a lista de vantagens e desvantagens de adotar a "Web 2.0" (Javascript, HTML5, CSS) como plataforma:

a) O aplicativo é inerentemente portátil, roda em qualquer sistema operacional.

b) A portabilidade inclui a interface de usuário. No caso do Python, eu tive de optar entre um "rosto" feio porém portátil (PyTk) ou um rosto bonito com problemas de portabilidade.

c) Não é preciso instalar nada para rodar um aplicativo Web. Isso me poupa o trabalho de gerar pacotes de instalação (um para Windows, outro para Mac, outro para Linux...).

d) Em quase todos os browsers modernos, Javascript roda MUITO rápido. Enquanto isso, a simulação Python depende da instalação do Psyco (que não tem versão 64 bits) para alcançar a mesma performance.

Claro que Web 2.0 tem as suas desvantagens:

a) Como linguagem, Python é melhor que qualquer Javascript (na verdade, é melhor que qualquer outra :)

b) O ambiente Javascript dentro do browser é diferente do ambiente de linha de comando, e "seria interessante" (TM) que a simulação rodasse em ambos;

c) Será mais difícil, ou impossível, tirar proveito de processadores "multi-core".

Segunda-feira, Julho 26, 2010

Novo livro: Ganhando dinheiro com opções

Um período de férias estendidas no início deste ano acabou resultando em mais um livro sobre opções, publicado novamente pela editora Novatec. É o tal do ócio criativo.

Embora haja uma certa sobreposição de conteúdo com o livro anterior, para que a nova obra faça sentido por si mesma, a abordagem é completamente diferente. Para começo de conversa, todas as fórmulas matemáticas foram "banidas" para um Apêndice. O conhecimento é "almanaquizado"; o leitor obtém respostas rápidas sobre o que operar, quando, e por que. Boa parte desse conhecimento é empírico, obtido por experiência e/ou por simulações.

A "força motriz" deste livro é a mesma do anterior: a necessidade de ferramentas para uso pessoal. Em determinado momento, precisei de informações mais sofisticadas para saber o que fazer no mercado de opções. Não há fórmulas simples para dizer, por exemplo, se uma trava de baixa é uma boa operação no mercado atual. O único jeito de realmente testar uma hipótese é apostando nosso dinheiro nela, mas as simulações permitem pelo menos filtrar fora os cenários flagrantemente ruins. A outra opção é a covardia: evitar qualquer operação mais complicada que venda coberta. E na verdade há muitas ocasiões em que isto é mesmo o melhor a se fazer, conforme as próprias simulações nos mostraram.

Deste esforço, saiu um "pacote" de scripts de simulação, escritos na linguagem Python. Um dos scripts é listado num Apêndice do livro, mais para fins de ilustração, para que os interessados possam ter uma ideia "de onde saíram os números". Esses scripts foram tema de uma série de posts sobre performance no blog Senzala Digital. A intenção genérica é publicar toda a biblioteca de scripts como software livre. Sendo bem honesto, não fiz isso ainda simplesmente porque os scripts, embora funcionem, não estão nada apresentáveis do ponto de vista de "coding style". Além disso, não estão organizados de uma forma fácil de usar. E arrumar isto toma tempo.

Outra ferramenta criada nesta mesma balada foi o estudo gráfico de opções e operações. O livro usa dezenas de screenshots desta página Web. Neste momento, a página mostra apenas os valores mais atuais de cada opção, mas pretendo a médio prazo disponibilizar o acesso a dados históricos (tive de implementar este recurso para fazer o livro, já que de vez em quando um screenshot precisava ser refeito e obviamente tinha de referir-se aos mesmos dados).

Pelo menos no que eu tenho visto no mercado editorial, inclusive em língua inglesa, tais ferramentas e abordagens têm um grau razoável de ineditismo. É óbvio que não são realmente inéditas; coisas muito mais sofisticadas que estas podem ser encontradas dentro dos bancos, fundos de investimentos etc. mas são segredos guardados a sete chaves. Existe um vazio enorme entre o que fazem os grandes investidores institucionais e o "achismo" normalmente associado ao pequeno investidor. É este espaço que começamos a preencher.

Ainda há um potencial enorme a ser extraído das simulações. Um belo dia o livro tem de ser "congelado" para revisão, diagramação e lançamento; e as novas ideias que surgem a partir daquele momento ficam de fora. Restam muitas hipóteses e cenários a simular, material bruto que pode dar origem a outros livros, ou muitos posts no blog :) Também há espaço para alguma ferramenta de meta-análise.

E é isso aí. Espero que os leitores gostem :)

Quarta-feira, Maio 12, 2010

Gadget HP-12G para Windows 7

Fazendo um cross-postzinho básico. Conforme anunciei no blog técnico, o emulador da calculadora financeira agora está disponível como "Gadget" para Windows 7.

A instalação é manual mas muito simples: desempacote o Zip e arraste a pasta para Program Files / Windows Sidebar / Gadgets, que é a pasta onde os demais gadgets ficam.

O gadget pode ser operado tanto com mouse como teclado. Obviamente via teclado é mais rápido, e todas as "teclas virtuais" da calculadora têm atalhos (embora nem sempre a relação seja óbvia. Por exemplo, o atalho correspondente à tecla FV, é a letra V). Ainda não incluí instruções de teclado no próprio gadget, mas você pode visitar a página do emulador original que traz instruções em português. Os atalhos de teclado são exatamente os mesmos.

E é isso aí, agora todo mundo pode calcular mais facilmente quanto perdeu com a crise grega! :)

Quinta-feira, Fevereiro 11, 2010

[Pecados do investidor] #4: Antecipar o mercado em vez de surfar a onda

"O mercado pode permanecer irracional por mais tempo do que você pode agüentar sem quebrar"
-- Keynes

Por conta da crise do sub-prime, Keynes está novamente em voga, para desespero dos neoliberais e regozijo dos governos de centro-esquerda. Não sou muito fã de Keynes, e se eu fosse, não estaria tentando a sorte na Bolsa, porque Keynes considerava a Bolsa uma mera máquina de votar, e não uma máquina de média ponderada. Mas Keynes conquistou uma vitória póstuma importante em cima dos (neo)liberais: de que os investidores não são autômatos perfeitamente racionais, e o mercado pode desviar consideravelmente da racionalidade, ainda que sempre volte ao normal no longo prazo.

Isto não é coisa nova, já é algo bem conhecido desde o final dos anos 90, quando a fé na racionalidade contínua dos mercados estava no auge, e o fundo Long-Term Capital Management descobriu do jeito difícil (falindo) que na prática a teoria é outra. Note que dois dos sócios do LTCM eram os economistas Merton e Scholes, dois dos três criadores do modelo de Black-Scholes para opções. Black não era sócio também porque já tinha morrido.

Assim, muita gente enxerga, ou pensa enxergar, uma ineficiência de mercado. De longe o vislumbramento mais comum é que "ação XPTO está desvalorizada, vai bombar". Aí o sujeito compra, e faz um monte de propaganda de XPTO nos fórums especializados para ver se o resto da manada vai com ele. O desfecho é em geral um destes:

1) XPTO cai ainda mais e o sujeito se acovarda, fica com medo de perder dinheiro, esquecendo completamente da previsão original, e vende tudo.

2) Se ele tinha armado alguma operação com opções baseadas em XPTO, a operação tem dia para expirar, aí o que ele previu não acontece até esse dia, e ele perde dinheiro.

O paradoxo é que a definição de investir é apostar em determinado cenário no futuro. Ou seja, o investidor tem de acreditar em algo diferente do que o mercado está dizendo neste momento. E aí, como é que faz?

Talvez o principal erro seja o estabelecimento de um prazo para a visão futura realizar-se. Mesmo que você esteja certo sobre para onde o mercado vai, o fantasma de Keynes impede que possa ser atribuído um prazo para isto acontecer. Em particular as previsões de preço-alvo dos analistas são pura bobagem.

Por este motivo, as operações com opções que dependam de um movimento amplo e específico do mercado para dar lucro, são obviamente desaconselhadas. Já investir em ações é mais fácil, pois pode-se segurá-las até a sua previsão realizar-se... mas aí o medo de perder, a covardia, entram em cena.

O medo de perder faz você inverter a visão futura a toda hora. Você compra Petrobrás a 32 porque acha que o preço justo é 37. Aí ela cai a 31.50 e você imediatamente muda de idéia, e aposta na baixa. Aí ela sobre novamente a 32.50 e novamente muda.

Este mal acomete em particular quem fica acompanhando o Home Broker o tempo todo. É quase impossível não ser contaminado. Eu sou o primeiro a admitir isso, e mesmo em operações recentes fui vítima da visão-X-de-futuro seguida de um ataque de covardia.

O melhor remédio contra isso é olhar o mercado apenas uma vez por dia, ou a cada dois dias. Parece um contra-senso, mas já aconteceu inúmeras vezes de o mercado fazer um movimento brusco durante o dia, que teria me levado ao desespero, só para fechar estável no fim do dia, e permanecer estável no dia seguinte. Se eu estivesse vendo o home broker, teria agido por desespero. Mas estava passeando, não fiz nada, e foi o melhor!

Se você é uma pessoa razoável, que sabe avaliar superficialmente a solidez de uma empresa, a relação preço/lucro, os principais números de um balanço, a maior chance é que você escolha empresas boas para investir. Você vai estar escolhendo melhor que a média do mercado, isto é certo. Mas o seu principal inimigo vai ser o medo de perder, que vai fazê-lo acovardar-se da análise inicial.

Outro erro é ignorar que o mercado tem "ondas". Embora eu não acredite muito em análise técnica, até o mais descrente em gráficos admite que existem picos e vales periódicos no mercado, tanto no intraday, quanto nos preços diários, semanais, etc. O gráfico é um fractal: cada pedacinho tem a mesma aparência genérica do todo.

Assim, se o gráfico diário mostra uma "onda" de baixa, na escala de tempo que você pretende investir, é interessante esperar para ver ela fazer um fundo, para tentar comprar um pouco mais barato. Não há garantias, mas muitas vezes é possível economizar bastante com esta infantil providência. Posso afirmar que muitas vezes deixei de observar isso, tive cobiça, pensei que "vai subir!" e comprei no início de uma onda de baixa, deixando de aproveitar pechinchas 10% ou 20% mais baratas, duas semanas depois.

Aliás, aliado ao pecado da cobiça, o "medo da alta" costuma fazer mais vítimas que o "medo da baixa". É tão comum comprar apenas pelo medo cobiçoso de ficar de fora da Grande Subida....

Ao menos, operar comprado tem um consolo: poder sentar e esperar. Quem opera com opções, ou quem opera vendendo ações a descoberto, não tem nem isso. Se vender a descoberto e o mercado subir, e o investidor ficar na esperança de que o mercado concordará com ele no curto prazo que "tem que cair", ele pode quebrar.

Da mesma forma, as operações com opções têm de apontar para a "onda", ainda que contrariando a visão de longo prazo.

Mas, tem um detalhe. SEGUIR A ONDA NÃO SIGNIFICA SEGUIR MODISMOS. Uma coisa é bem diferente da outra.

Seguir um modismo implica em "acreditar", o que não é bom. E em geral quando um modismo chega a seus ouvidos, ele já está apodrecendo. A cada época, determinados papéis da Bolsa estão na moda. Em particular os chamados "micos".

Não é errado eventualmente comprar um papel desses para aproveitar a onda e lucrar com ela. Em particular quando trata-se de empresas sólidas, mesmo que tudo dê errado, o tombo não vai ser tão feio. Por exemplo, Whirlpool (WHRL4) e Eternit (ETER3) eram empresas "da moda" por volta de 2006, 2007. Hoje elas saíram de moda, mas não viraram pó; WHRL4 valia 2.50 em 2007 e agora vale 3.50. Não é um ganho de 100%, mas também não é mau. Eternit valia uns 9, chegou a subir a 17, agora está de volta aos 9, mas pagou muitos dividendos nesse interim.

Agora, micos que envolvam empresas em situação falimentar, com patrimônio negativo etc., devem ser tratadas como uma amostra de plutônio. Entrar com o fim exclusivo de surfar a onda, sair o mais rápido possível, e ainda assim estar preparado para perder tudo. Eu nem isso faço, eu tenho medo, admito mesmo.

[Pecados do investidor] #3: Jogar para empatar em vez de jogar para ganhar

Uma característica marcante do ser humano é o "sunk cost", ou seja, a tendência de queimar vela cara com defunto barato; investir mais em alguma empreitada perdedora, unicamente porque ela já absorveu um monte de recursos, e parece de alguma forma errado, ou "fica feio" simplesmente jogar a toalha e tentar uma coisa nova.

Este padrão é observável em todos os níveis de organização humana, desde individuais até empresas e governos. É uma coisa entremeada na nossa mente, ninguém está livre deste sentimento. É mais um daqueles instintos que garantem a sobrevivência da espécie (talvez seja bom um pai investir no filho mesmo que lhe pareça inútil), mas puxam o nosso tapete quando vestimos o chapéu de investidor.

O "sunk cost" impede o investidor de realizar perdas enquanto elas ainda são pequenas. O sentimento emerge, e é racionalizado como esperança. "Amanhã vai subir, tem de subir". Mas continua caindo. E ainda assim resistimos em realizar a perda, pois seria nosso atestado de burrice estampado no extrato da conta da corretora. É melhor deixar como está, pois as ações sempre se recuperam um dia. E o investidor, assim pensando, dorme tranquilo.

Se este investidor tinha comprado papéis de boas empresas, realmente é provável que as ações acabem recuperando-se, e um belo dia a carteira do nosso herói entra em território positivo. Aí...

Aí ele deixa de dormir bem, começa a preocupar-se, com medo de perder aquele lucrinho. E vende tudo. Aí as ações continuam subindo, mas ele consola-se com os bordões aplicáveis: "lucro bom é lucro no bolso"; "sempre realize cedo demais".

Até que a cobiça faça este investidor comprar novamente as mesmas ações, geralmente no pico do mercado, e aí elas começam a cair...

Uma variante desse padrão de comportamento é o cara que segue o bom conselho de diversificar a carteira. XPTO sobe 1%, e Merposa cai 5%. Aí ele vende XPTO porque "lucro bom é lucro no bolso", enquanto deixa Merposa cair até a metade do valor de compra.

É curiosíssimo como o ser humano pode suportar a adversidade, mas lide mal com o sucesso. E isto faz as pessoas jogarem para empatar, para não perder, em vez de jogar para ganhar. E nenhum de nós escapa a esta tendência. Atire a primeira pedra quem nunca realizou lucro de 1% (vendo o papel subir mais 9% logo em seguida, sem você) ou segurou uma ação decididamente perdedora na carteira.

E esta é a forma mais segura de nunca ganhar dinheiro, pois expõe o investidor a perdas ilimitadas, enquanto limita os ganhos, fazendo a média geral cair em território negativo. Ouso dizer que é mais danoso realizar lucros cedo demais do que deixar-se anestesiar na baixa; pois se o sujeito simplesmente deixasse a carteira em paz em qualquer situação, seria respeitado como adepto do "buy-and-hold". Mas ele não deixa; tendo sido exposto a quedas de 50%, ele trata de realizar aquele ganho de 4% logo, e se acha esperto.

Neste aspecto, operar opções é muito diferente de operar ações; não se pode buscar consolo no "buy-and-hold", já que as opções expiram. Se houver perdas, elas fatalmente serão realizadas. É muito difícil lidar com isso.

Por exemplo, suponha uma trava de baixa pode trazer lucro máximo de R$ 1000 ou prejuízo máximo de 1000. Pode apostar que a possibilidade de sofrer este prejuízo vai lhe incomodar *muito* mais do que a possibilidade da sua carteira de ações cair 15% amanhã. Talvez você até fique contente se o mercado cair 15%, já que sua trava de baixa sairá no lucro!

No fim, são tudo instâncias do medo de perder. E o medo de perder nos leva a jogar para empatar -- o que é uma grande perda de tempo em se tratando de finanças. Mas jogar para empatar é uma coisa profundamente enraizada no ser humano.

Dizem que as mulheres preferem homens comprometidos e/ou promíscuos porque de alguma forma eles já foram "testados e aprovados". Talvez seja um algoritmo aceitável para achar um bom reprodutor, mas certamente é péssimo para achar um bom marido. Ganha num lado, perde no outro -- é jogar para empatar e receita de infelicidade.

Mas adivinhe só: nós os investidores, em sua maioria do sexo masculino, fazem a mesmíssima coisa em relação a ações da Bolsa. Compramos quando estão caras e na moda, rejeitamos quando estão baratas e fora de moda.

E sabe o que é mais terrível? Até mesmo os analistas, que deveriam ver mais longe, deixam-se levar igualzinho! Minha corretora dá acesso a determinado site de análise fundamentalista, que estava recomendando compra de Vale e Petrobrás em meados de 2008 (quando estavam no pico), mas desaconselhando-as logo após a grande queda do fim de 2008. Agora que Vale e Petro estão de novo a caminho do topo histórico, a recomendação é novamente de compra.

E assim, quem segue conselhos de tal analista, compra Vale a R$ 50, vende a R$ 20, e agora recompra a R$ 40.

No seu famoso livro "The Intelligent Investor", Benjamin Graham faz uma afirmação que sozinha vale o preço do livro: quando a ação cai, seu risco também cai. É tão óbvio, de uma simplicidade infantil, mas nosso cérebro reptiliano não enxerga isso sem ajuda externa.

[Pecados do investidor] #2: ignorar o poder do medo

"Eu tenho medo"
-- Regina Duarte

Faz mais ou menos meio ano que fui visitar um túnel ferroviário, junto com minha esposa. Escavado na pedra, 136m em curva, praticamente um ponto turístico da região. Meu plano era percorrê-lo por dentro. Esperei meses pela conjunção de vários fatores: disponibilidade de tempo, dia de sol, avó disposta a cuidar do neto, etc. Fui armado de uma lanterna elétrica safada, mas que me pareceu suficiente, afinal 130 metros parece uma distância minúscula em linha reta; algo como três postes de luz.

Mas chegando lá, adentrei um pouco e… remanchei. Era muito mais escuro do que eu esperava, não era possível ver nem uma sugestão de "luz no fim do túnel" (literal) enquanto a outra extremidade ia ficando cada vez menor. De repente, todos os medos plausíveis e implausíveis começaram a pipocar: que a lanterninha ia falhar justo no meio do trecho, sem luz visível de qualquer lado; que o trem passaria e faria picadinho da gente; que a montanha desabasse; que o comprimento do túnel era na verdade muito maior.

Eu podia botar a culpa na esposa. Se ela desse uma força talvez a gente tivesse conseguido. Mas, noutro dia...

Fui visitar uma ponte ferroviária, sozinho. Tencionava atravessar até o o outro lado. Refuguei de novo! Será possível? Medo de altura, medo do trem passar justo naquela hora, medo de ficar preso entre os dormentes… E mais uma paulada no ego. Por duas vezes, fui num lugar de difícil acesso, desejando muito fazer algo, e simplesmente o medo me impediu!

O fato é que aquela onda de medo subconsciente, animal, irresistível, tomou conta de nós, e não conseguimos prosseguir por conta disso. Todas as racionalizações são meros pretextos que arrumamos para massagear o ego, para não passarmos por covardes completos.

Não devemos subestimar nossos sentimentos, e em particular nossos medos; eles podem assumir o controle quando menos se espera; e podem nos levar a fazer coisas idiotas. E por mais que nos preparemos antes, que desejemos atingir um objetivo, ainda assim falhamos.

Inúmeros livros e artigos listam os erros e pecados mais comuns dos investidores iniciantes (com a ressalva que tais pecados também são amiúde cometidos por investidores experientes). Todos os inúmeros pecados podem ser condensados em dois sentimentos: MEDO e COBIÇA.

O medo nos impede de jogar para ganhar, enquanto a cobiça nos faz esquecer de controlar risco. Embora cada pessoa possa ser no geral mais "medrosa" ou mais cobiçosa, infelizmente cada um de nós é capaz de ser dominado por medo ou cobiça alternadamente, e geralmente na hora errada.

Na minha visão, a cobiça é simplesmente uma espécie particular de medo: o medo de ficar para trás, de ser um otário, de não pular no trem da alegria a tempo. É o medo de passar por medroso.

Considere o erro clássico do investidor: comprar no topo e vender no fundo. Absolutamente todo investidor já fez isso. Eu já fiz várias vezes. Ninguém escapa. No topo, você fica com o medo cobiçoso de ficar de fora do papel do momento. No fundo, você sai fora e recusa-se a entrar com o mercado em baixa, pois tem medo de perder tudo, e de ser xingado (ou gozado) pela Dona Encrenca.

Muitas e muitas vezes, o investidor faz isso sabendo perfeitamente que está errando. Mas ele deixou-se dominar pelo medo. E é assim que o ser humano se comporta. Sempre haverá bolhas e pânicos, porque por mais que se saiba que são erros crassos de investimento, o medo e a cobiça são indomáveis.

A "psicologia de manada" dos mercados, alternando fases de cobiça com fases de pavor, é universal; mas nós brasileiros temos uma aversão ao risco mais aguda que outras culturas, por fatores que não cabe discutir aqui; o ponto é que esta herança cultural trabalha contra nós. É a síndrome de Regina Duarte. Entre correr riscos para melhorar alguma coisa ou deixar tudo como está, ficamos com a segunda opção.

E, finalmente, todo mundo é machão na conversa com os amigos… ou escrevendo num blog. Não se pode "ensaiar" o medo; é preciso enfrentar as situações na prática para descobrir seu limite, seja tentando atravessar um túnel ou colocando dinheiro em risco.

O pior é que atravessar o túnel não vai prepará-lo para atravessar a ponte, pois claustrofobia não é igual a medo de altura. Da mesma forma, acostumar-se com uma determinada operação não vai prepará-lo para a próxima. Descobri isso não faz muito tempo, ao tentar umas travas de baixa em vez de venda coberta. Embora o risco da trava seja limitado, é um risco diferente, e foi o suficiente para me incomodar. Faço travas menores do que o meu lado racional suportaria, para não ficar com medo o tempo todo...

Um pouco de medo e ansiedade são componentes importantes e úteis da psique. Gente que sempre vai a 12 no truco sem nada na mão, também não dura na Bolsa. É bom e importante sentir medo; só não se pode deixar o medo dominar nossos atos, anestesiando-nos na hora de agir, ou fazendo agir de forma boba.

Quarta-feira, Fevereiro 10, 2010

[Pecados do investidor] #1: pretender viver de Bolsa

Há muito tempo, periódicos em geral lançam mão de uma lista de "sete pecados", "sete erros", "dez perguntas", "dez mitos", enfim, uma quantidade mágica de items a respeito de determinado assunto. É um artifício para encher lingüiça, utilizado quando o redator não tem idéia melhor e a edição precisa fechar, e mesmo assim a maioria das pessoas gosta.

Então, já que todo mundo faz, também vou fazer a minha lista de pecados do investidor. Com um detalhe: são erros que eu cometi pessoalmente, e às vezes ainda cometo. São meus demônios particulares. É difícil individualizá-los, pois estão todos interligados.

Bem, ao assunto. Veja se esta "consulta" lhe soa familiar:


Seguinte meu bruxo: tenho 5.000 reais para investir e preciso de uma renda mensal de 3.000 reais. Que operações devo fazer para conseguir isso? Garante que não vou perder o investimento?


Certamente algum amigo, parente, cunhado, colega de forum ou mesmo um completo desconhecido já lhe fez esta pergunta. Já vi isto inúmeras vezes, é até motivo de gozação recorrente dentro da equipe #d00dz. Mas a verdade é que todo mundo, inclusive eu mesmo, já sonhou em viver de Bolsa. Quem disser que não, é mentiroso e está com vergonha de admitir :)

O chato é que *existem* formas de conseguir a renda que nosso bruxo deseja. Se o sujeito acertar a mão no daytrade um mês inteiro, comprar opções e o mercado subir, ou fazer uma trava de baixa ITM e o mercado descer, ele consegue o que quer. Só que a chance de perder o capital, em qualquer caso, é de 50% ou mais. O fato dessas "oportunidades" existirem é a causa de muita desgraça.

O engodo é mais sutil, mas igualmente perigoso, quando o sujeito tem mais dinheiro e uma noção básica de que não conseguirá dobrar o capital todo mês. Aí ele tenta extrair 'razoáveis' 5% ao mês de 50 mil. Para atingir esta performance, ainda é preciso correr riscos bastante grandes; e fatalmente o sujeito perde muito dinheiro. Se perder metade e sair da Bolsa injuriado, para nunca mais voltar, ainda pode considerar-se um cara de sorte. Muitos perdem tudo.

Há cinco problemas aqui. O primeiro e mais óbvio é a exigência de uma performance muito grande. O parâmetro tem de ser a renda fixa. Se um investidor faz o dobro da renda fixa (o que significa 1,5% ao mês, hoje), já é uma boa renda, e é preciso colocar dinheiro em risco para atingí-la.

O segundo problema é a necessidade premente da renda se concretizar todo santo mês. Como extrair uma renda fixa de um mercado de renda variável? O próprio nome -- renda variável -- evidencia o paradoxo.

Quando o sujeito precisa fazer uma renda mensal, ele acaba sendo obrigado a fazer qualquer operação e correr riscos desaconselháveis, sem esperar a melhor oportunidade. Mesmo quem "não precisa" extrair renda da Bolsa incorre às vezes neste erro, por sentir-se coagido a não perder da renda fixa. E operar sob pressão é receita para o desastre.

Além disso, apesar de tecnicamente toda aposta ter 50% de chance de sair vencedora, a Bolsa parece ter uma predileção sobrenatural em puxar o tapete de quem busca nela uma renda certa. O mais legendário investidor de todos os tempos, Jesse Livermore, menciona em sua biografia um caso interessante a respeito disto.

Contou ele que diversos operadores fizeram uma "aposta": tentar comprar um certo casaco de peles muito caro, com a condição de que o dinheiro teria de ser ganho na Bolsa. Um após o outro, todos falharam no intento. Note que tratava-se de gente experimentada no mercado, com muito dinheiro, e acostumada inclusive a fazer manipulações e trambiques. Quando finalmente um desses investidores decidiu comprar o casaco de qualquer jeito (sem ter ganhado o dinheiro na Bolsa), ele não estava mais na loja, já tinha sido vendido.

A lição que Livermore tenta passar é: não se deve pretender tirar um "salário" mensal da Bolsa para fazer frente a despesas e compromissos. O mercado teria uma tendência quase mágica a entornar o caldo de quem faz isso. Ou talvez seja simplesmente a necessidade de operar qualquer coisa, regularmente, sem esperar pelo melhor momento, que cause a derrota. Isto vale mesmo para os mais ricos investidores.

Não há nada de errado em retirar dinheiro da corretora para pagar despesas, se for necessário. Dinheiro é para gastar. Se o capital investido for grande o suficiente, este saque não vai comprometê-lo. Mas é impossível sincronizar retiradas com os ganhos; quem não tem outra fonte de renda, tem de aceitar o risco de ter de fazer retiradas com o mercado no fundo do poço.

Como diz o Bastter com muita propriedade: Bolsa remunera capital, não paga salário. E os combustíveis da remuneração são tempo e risco. Sem dar tempo ao tempo e sem correr riscos, não há retorno.

Também pode-se usar aqui o argumento do "mercado eficiente". Se a Bolsa oferecesse algum mecanismo de geração de renda fixa sem risco, todos os poupadores migrariam para a Bolsa, inundando-a de dinheiro e fazendo-a subir, até o hipotético rendimento empatar com a renda fixa "normal".

No post anterior, mencionamos as operações-taxa, que permitem obter uma renda quase fixa, quase sem risco. Há operações sofisticadas que permitem extrair uma renda "fixa" da Bolsa. Mas quanto mais segura for uma operação, mais a taxa de retorno dela vai aproximar-se da renda fixa convencional, ou da poupança. Certamente uma taxa de 1,5% ao mês não é o que o nosso bruxo com 5000 reais no bolso consideraria um "bom investimento". E se o capital não for muito grande, tais operações sofisticadas podem nem valer a pena.

O terceiro problema dos "bruxos" é que eles, paradoxalmente, buscam risco zero, ao mesmo tempo que desejam altíssimo retorno. Em geral porque têm pouco dinheiro, e compreensivelmente não querem perdê-lo. Mas falta a muitos a noção de que risco e retorno andam de mãos dadas.

O quarto problema é que a necessidade de dinheiro para a vida pessoal é quase sempre um valor fixo mensal, e é impossível casar isto com a natureza variável da renda da Bolsa. Por mais que o sujeito pense "se eu ganhar menos, gastarei menos este mês", ele não vai conseguir fazer isto de verdade (muito menos se tiver família).

E haverá meses em que o rendimento da Bolsa será negativo, e espera-se que o investidor *traga* capital para segurar o que tem. Isto implica em que haja outra fonte de renda, de natureza completamente diferente -- como por exemplo o bom e velho salário de empregado.

É por isso que todo consultor de finanças que valha o que come, encoraja os investidores a continuar trabalhando em suas profissões "normais". Entre outros motivos, é uma "bóia de salvação" se tudo o mais falhar.

O quinto e último problema da "bruxaria" é que, se uma pessoa chegar a ter capital suficiente na Bolsa para viver apenas disso, a administração desse capital tornar-se-à uma ocupação full-time -- ou pelo menos uma preocupação full-time. Ou seja, o sujeito troca um emprego por outro. Será que é isto que os "bruxos" procuram? Duvido.

Naturalmente, ser dono da própria quitanda tem suas vantagens. E é onde a maioria de nós quer chegar. Mas não nos iludamos; sossego completo é só na sepultura.

Operações-taxa com opções

No meu livro, eu tinha mencionado a pouca utilidade de operações como venda coberta e trava de baixa "no dinheiro" (ITM). Elas arrecadam muito dinheiro, mas quase tudo é devolvido no encerramento. Não rendem na alta e não protegem contra fortes baixas. Parecem não servir para nada...

Mas a diminuição das taxas de juros encarregou-se de provar que eu estava errado. Há sim oportunidades nas operações vendedoras ITM. Vamos considerar um ativo hipotético XPTO4:

Valor atual (spot): R$ 100
Volatilidade: 25% ao ano
Taxa de juros: 9% ao ano
Vencimento da próxima série de opções: 1 mês

Uma opção de compra com strike de R$ 95, na situação acima, vale R$ 6,51, dos quais R$ 5,00 são valor intrínseco e R$ 1,51 são valor extrínseco. A venda coberta dessa opção rende, no máximo, R$ 1,51, ou seja, o capital é remunerado em apenas 1,51% ao mês.

Nesta mesma situação, a venda coberta da opção ATM, com strike de R$ 100, renderia R$ 3,23, mais que o dobro. Por que alguém venderia outra opção que não a ATM?

O ponto é que venda coberta da opção a R$ 95,00 dá muito mais proteção contra quedas. A ação XPTO4 pode cair até R$ 93,49 sem que a operação saia no prejuízo (supondo que seja carregada até o vencimento). Um "stop" em R$ 95,00 garante que, na pior das hipóteses, a operação seja liquidada automaticamente antes de entrar em terreno negativo. Embora o rendimento seja pequeno, o risco também é pequeno. E um rendimento de 1,5% ao mês é o dobro da renda fixa!

Uma operação com esta característica é denominada operação-taxa, pois ela tem um rendimento quase fixo e de baixo risco. Esse rendimento vai ser geralmente modesto, e rivaliza com a renda fixa, não com o índice BOVESPA.

Claro que "baixo risco" é muito relativo. Nada impede a ação XPTO4 de cair de 100 para 30 instantaneamente, ou na virada do dia, caso em que um "stop" é completamente inútil. Este "risco de gap" não pode ser eliminado completamente, mas pode ser diminuído pela adoção de um ativo extremamente líquido (Petrobrás, Vale), cujos preços oscilam de forma mais contínua, sem gaps muito grandes.

Outra possibilidade de (pequena) perda com esta operação, é se o ativo cair rapidamente até o ponto de "stop" logo nos primeiros dias da operação. Na montagem, gastamos R$ 93,49 (100 - 3.51). Se em seguida o ativo cair para R$ 95, a opção que tínhamos vendido torna-se ATM e seu valor extrínseco aumenta para R$ 3,07.

Assim, gastamos 3,07 para recomprar este papel, mas recebemos 95 ao vender XPTO. Total recebido de volta: R$ 91,93. Como tínhamos gastado 93,49 para montar, o prejuízo foi de R$ 1,56 (exatamente o aumento do valor extrínseco, de 1,51 para 3,07), que representa 1,56% do investimento.

Este é o pior cenário, quando a queda é justamente a seguir da montagem. Se esta queda em direção ao stop ocorrer mais próximo do vencimento, o valor extrínseco da opção será menor. Considerando o cenário hipotético que estamos usando, o empate ocorre a 8 dias do vencimento.

Para evitar até mesmo este pequeno prejuízo, podemos vender opções ainda mais ITM, e/ou colocar o stop mais acima. Opções mais ITM diminuem o (já magro) rendimento, e o stop mais apertado aumenta a chance da operação ser "violinada".

Outro aspecto importante desta operação é que, pelo fato do rendimento ser pouco, é preciso muita atenção com os custos de corretagem. Se a corretora cobrar 0,5% do valor a cada transação, isto roubaria dois terços do rendimento da nossa operação hipotética. Diferente da venda coberta "tradicional", onde o vendedor fica contente se a opção virar pó, a operação-taxa sempre liquida a operação, seja sendo exercido ou por desfazimento.

Pelas características de pouco rendimento e necessidade de acompanhamento, esta operação exige um operador atento, e um volume de capital grande o suficiente para o aborrecimento valer a pena. Certamente é uma ferramenta interessante para gestores de fundos e grandes carteiras. Também é uma operação "à prova de Dona Encrenca" (*), pois (se acompanhada de perto) é uma operação cujo potencial máximo de perda é bem pequeno.

(*) O fator "Dona Encrenca" é o medo que o operador tem de ser xingado pela esposa ao perder qualquer dinheiro na Bolsa ou aplicação de renda variável. Ou ser vitimado pela irrepreensível lógica de "se você pode perder 4 mil na bolsa, eu posso gastar 4 mil em roupas!".

Sexta-feira, Fevereiro 05, 2010

TV Bastter e o "Cemitério dos Malandros"

O Bastter continua evoluindo o esquema dele, com ferramentas cada vez mais profissionais, mas sem perder a característica de pessoalidade. Dentro de um universo onde há quem prometa 30% ao mês de rendimento em mercados que são necessariamente soma-zero (o tal do Forex), o Bastter destaca-se como o mais honesto e didático dentre os consultores de investimentos.

Agora (ou há algum tempo, mas só vi agora), tem a "TV Bastter" (http://www.tvbastter.com), basicamente uma coleção de vídeos com dicas. (O único senão é o formato do vídeo, WMV; felizmente o Quicktime do Snow Leopard parece suportá-lo).

Dentre esses, há a série "Cemitério dos Malandros", com direito a entrada e locutor lembrando filmes do Zé do Caixão. Cada "filminho B" fala sobre uma armadilha em que investidores iniciantes, aqueles que querem viver de Bolsa (todo mundo já teve esse sonho, é fato) costumam cair.

Altamente recomendado, inclusive para rir um pouco e desestressar da quedona da Bovespa de ontem.

Quinta-feira, Dezembro 03, 2009

Mais uma pegadinha estatística

Brincar com números e estatísticas sempre traz algumas surpresas. Por exemplo, será que um automóvel elétrico valeria a pena? Você acha que sua conta de luz é muito cara?

Tomando por base os preços do meu "ecossistema", a energia elétrica custa R$ 0,50/kWh, o litro de gasolina custa R$ 2,54, e o litro do diesel está mais ou menos R$ 1,90.

A gasolina possui, sendo otimista, 4.186 x 9000 x 1000 = mais ou menos 36 mega joules (MJ) de energia (sendo otimista porque a gasolina pesa menos que 1 kg por litro, mas estou com preguiça de procurar na Wikipedia). Isto dá um custo de R$ 0,07/MJ. Fazendo a mesma conta para o diesel, o custo por MJ é R$ 0,052, valor que utilizaremos doravante para fazer as comparações.

Um kilowatt-hora equivale a 3,6MJ de trabalho, o que redunda em R$ 0,14/MJ, o dobro da gasolina e o triplo do diesel.

Ou seja, joule por joule energia elétrica é realmente bem mais cara -- embora seja uma forma de energia muito mais versátil. Certamente você não consegue alimentar seu computador diretamente com óleo diesel. Não sem investir num gerador bastante caro, ao menos.

Só que, se você comprar um gerador diesel, vai descobrir que o rendimento dele vai ser de no máximo 40%. Sendo extremamente otimista, cada joule de diesel queimado resulta em apenas 0,4 joules de enegia elétrica; o resto vai embora com a fumaça. O custo real da energia que sai do gerador é... R$ 0,175.

Ou seja, além da despesa com o gerador, o custo da energia já é mais alto que o da conta de luz, sendo que a concessionária de energia gera a eletricidade longe da sua casa, tem toda a despesa com transmissão, sincronismo, redundância, geradores de reserva...

Se considerarmos um automóvel a gasolina, a conta fica ainda mais feia. O rendimento de um motor de carro em condições normais de uso é 18%. Isto corresponde a um custo por MJ de R$ 0,39, quase o triplo da energia elétrica. Sim, um carro elétrico seria um bom negócio.

É claro, eu estou considerando que um carro elétrico tem rendimento de 100%, o que não é verdade. O rendimento de um bom motor elétrico é uns 90%, e a carga de uma bateria também tem perdas, de 30% a 50%.

Ainda assim, real por real, o carro elétrico vale a pena. E algumas tecnicalidades permitem um carro elétrico usar motores menos potentes, o que economiza muita energia, restaurando a vantagem inicial de 3:1 que tínhamos projetado.

Estudo gráfico de operações com opções


Muita gente tem acessado a página de volatilidades de opções Bovespa. Como toda ferramenta útil, ela surge de uma necessidade real.

Outra necessidade que surgiu, em particular com operações que envolvem mais de uma opção, é enxergar o comportamento dela ao longo do tempo. Teoricamente a página citada acima e a calculadora de opções mostram isso -- na forma de uma árida tabela cheia de números. Além disso, é chato ter de inserir números a cada uso de uma calculadora.

A solução seria traçar uns gráficos, talvez usando uma planilha Excel, mas eu tenho alergia a esta solução. Os gráficos do meu livro foram traçados com planilha e eu me arrependo amargamente disso -- sem poder voltar atrás depois que já havia uma centena de gráficos prontos. (*)

Como os dados brutos sobre as opções Bovespa já estavam "na mão", graças ao script gerador da página de volatilidades, a solução era traçar gráficos baseados nesses dados.

O resultado está aqui: http://epx.com.br/ctb/estudo.php. A lista de opções é extraída da mesma fonte da página de volatilidades, atualizada várias vezes por dia (quando o script não quebra, é claro...). Basta escolher as opções e a quantidade relativa de cada uma.


Cada curva representa o valor da operação toda num determinado momento. Diversos momentos são traçados, até o vencimento em vermelho. A "mira" do mouse (linhas cruzadas lilás) atualiza o valor numérico na legenda conforme a posição.

O traço preto vertical bem no meio do gráfico representa o "spot" atual da ação subjacente. Na verdade, como a "largura" do gráfico é calculada em função do "spot", esse traço vertical sempre vai estar no meio, a não ser que haja algum problema sério nos cálculos...

A curva cinza-claro que serpenteia a tela é a probabilidade de exercício de uma opção cujo "strike" seja igual ao valor do eixo X. (É meio difícil interpretar esta curva se não se está acostumado, mas gosto dela e já tinha usado ela no livro.)

As informações sobre as opções (strike e volatilidade) que aparecem à direita dos combos de escolha vêm da CBLC e dos cálculos de volatilidade, respectivamente. No futuro pretendo disponibilizar uma forma de inserir estes dados manualmente, para que o gráfico possa ser útil em mercados não-BOVESPA, e também no caso do script de atualização "mancar" por algum motivo.

O brinquedo está aí, espero que gostem! Notem que o programa ainda pode ter problemas, já que é muito novo e foi pouco usado. Peço a gentileza de reportar problemas, da mesma forma que as pessoas têm feito em relação às outras ferramentas do site.

(*) Para os sádicos nerds: cheguei a abrir o XML em modo texto para fazer mudanças globais nos estilos dos gráficos, porque eles estavam embutidos no texto do OpenOffice e este não tinha suporte a mudanças globais em elementos embutidos. No fim, para fazer o livro, tive de transformar tudo em imagens JPEG, o que significou muitas vezes renderizar em PDF para não perder os "labels" que eu tinha posto em cima (que pertencem ao texto, não ao gráfico). Uma coisa é certa: gráfico daqui pra frente, só com GNUPlot ou ferramenta que permita geração em lote!