"O mercado pode permanecer irracional por mais tempo do que você pode agüentar sem quebrar"
-- Keynes
Por conta da crise do sub-prime, Keynes está novamente em voga, para desespero dos neoliberais e regozijo dos governos de centro-esquerda. Não sou muito fã de Keynes, e se eu fosse, não estaria tentando a sorte na Bolsa, porque Keynes considerava a Bolsa uma mera máquina de votar, e não uma máquina de média ponderada. Mas Keynes conquistou uma vitória póstuma importante em cima dos (neo)liberais: de que os investidores não são autômatos perfeitamente racionais, e o mercado pode desviar consideravelmente da racionalidade, ainda que sempre volte ao normal no longo prazo.
Isto não é coisa nova, já é algo bem conhecido desde o final dos anos 90, quando a fé na racionalidade contínua dos mercados estava no auge, e o fundo Long-Term Capital Management descobriu do jeito difícil (falindo) que na prática a teoria é outra. Note que dois dos sócios do LTCM eram os economistas Merton e Scholes, dois dos três criadores do modelo de Black-Scholes para opções. Black não era sócio também porque já tinha morrido.
Assim, muita gente enxerga, ou pensa enxergar, uma ineficiência de mercado. De longe o vislumbramento mais comum é que "ação XPTO está desvalorizada, vai bombar". Aí o sujeito compra, e faz um monte de propaganda de XPTO nos fórums especializados para ver se o resto da manada vai com ele. O desfecho é em geral um destes:
1) XPTO cai ainda mais e o sujeito se acovarda, fica com medo de perder dinheiro, esquecendo completamente da previsão original, e vende tudo.
2) Se ele tinha armado alguma operação com opções baseadas em XPTO, a operação tem dia para expirar, aí o que ele previu não acontece até esse dia, e ele perde dinheiro.
O paradoxo é que a definição de investir é apostar em determinado cenário no futuro. Ou seja, o investidor tem de acreditar em algo diferente do que o mercado está dizendo neste momento. E aí, como é que faz?
Talvez o principal erro seja o estabelecimento de um prazo para a visão futura realizar-se. Mesmo que você esteja certo sobre para onde o mercado vai, o fantasma de Keynes impede que possa ser atribuído um prazo para isto acontecer. Em particular as previsões de preço-alvo dos analistas são pura bobagem.
Por este motivo, as operações com opções que dependam de um movimento amplo e específico do mercado para dar lucro, são obviamente desaconselhadas. Já investir em ações é mais fácil, pois pode-se segurá-las até a sua previsão realizar-se... mas aí o medo de perder, a covardia, entram em cena.
O medo de perder faz você inverter a visão futura a toda hora. Você compra Petrobrás a 32 porque acha que o preço justo é 37. Aí ela cai a 31.50 e você imediatamente muda de idéia, e aposta na baixa. Aí ela sobre novamente a 32.50 e novamente muda.
Este mal acomete em particular quem fica acompanhando o Home Broker o tempo todo. É quase impossível não ser contaminado. Eu sou o primeiro a admitir isso, e mesmo em operações recentes fui vítima da visão-X-de-futuro seguida de um ataque de covardia.
O melhor remédio contra isso é olhar o mercado apenas uma vez por dia, ou a cada dois dias. Parece um contra-senso, mas já aconteceu inúmeras vezes de o mercado fazer um movimento brusco durante o dia, que teria me levado ao desespero, só para fechar estável no fim do dia, e permanecer estável no dia seguinte. Se eu estivesse vendo o home broker, teria agido por desespero. Mas estava passeando, não fiz nada, e foi o melhor!
Se você é uma pessoa razoável, que sabe avaliar superficialmente a solidez de uma empresa, a relação preço/lucro, os principais números de um balanço, a maior chance é que você escolha empresas boas para investir. Você vai estar escolhendo melhor que a média do mercado, isto é certo. Mas o seu principal inimigo vai ser o medo de perder, que vai fazê-lo acovardar-se da análise inicial.
Outro erro é ignorar que o mercado tem "ondas". Embora eu não acredite muito em análise técnica, até o mais descrente em gráficos admite que existem picos e vales periódicos no mercado, tanto no intraday, quanto nos preços diários, semanais, etc. O gráfico é um fractal: cada pedacinho tem a mesma aparência genérica do todo.
Assim, se o gráfico diário mostra uma "onda" de baixa, na escala de tempo que você pretende investir, é interessante esperar para ver ela fazer um fundo, para tentar comprar um pouco mais barato. Não há garantias, mas muitas vezes é possível economizar bastante com esta infantil providência. Posso afirmar que muitas vezes deixei de observar isso, tive cobiça, pensei que "vai subir!" e comprei no início de uma onda de baixa, deixando de aproveitar pechinchas 10% ou 20% mais baratas, duas semanas depois.
Aliás, aliado ao pecado da cobiça, o "medo da alta" costuma fazer mais vítimas que o "medo da baixa". É tão comum comprar apenas pelo medo cobiçoso de ficar de fora da Grande Subida....
Ao menos, operar comprado tem um consolo: poder sentar e esperar. Quem opera com opções, ou quem opera vendendo ações a descoberto, não tem nem isso. Se vender a descoberto e o mercado subir, e o investidor ficar na esperança de que o mercado concordará com ele no curto prazo que "tem que cair", ele pode quebrar.
Da mesma forma, as operações com opções têm de apontar para a "onda", ainda que contrariando a visão de longo prazo.
Mas, tem um detalhe. SEGUIR A ONDA NÃO SIGNIFICA SEGUIR MODISMOS. Uma coisa é bem diferente da outra.
Seguir um modismo implica em "acreditar", o que não é bom. E em geral quando um modismo chega a seus ouvidos, ele já está apodrecendo. A cada época, determinados papéis da Bolsa estão na moda. Em particular os chamados "micos".
Não é errado eventualmente comprar um papel desses para aproveitar a onda e lucrar com ela. Em particular quando trata-se de empresas sólidas, mesmo que tudo dê errado, o tombo não vai ser tão feio. Por exemplo, Whirlpool (WHRL4) e Eternit (ETER3) eram empresas "da moda" por volta de 2006, 2007. Hoje elas saíram de moda, mas não viraram pó; WHRL4 valia 2.50 em 2007 e agora vale 3.50. Não é um ganho de 100%, mas também não é mau. Eternit valia uns 9, chegou a subir a 17, agora está de volta aos 9, mas pagou muitos dividendos nesse interim.
Agora, micos que envolvam empresas em situação falimentar, com patrimônio negativo etc., devem ser tratadas como uma amostra de plutônio. Entrar com o fim exclusivo de surfar a onda, sair o mais rápido possível, e ainda assim estar preparado para perder tudo. Eu nem isso faço, eu tenho medo, admito mesmo.